Umbanda: A Religião Brasileira — Orixás, Caboclos e a Síntese Sagrada
No dia 15 de novembro de 1908, em Niterói, um jovem de 17 anos chamado Zélio Fernandino de Moraes deu voz a uma entidade que mudaria a história religiosa do Brasil – A Umbanda.
Zélio sofria de uma doença misteriosa que a medicina não explicava. A família, católica, tentou padres. Sem sucesso, levaram-no a uma sessão espírita da Federação Espírita de Niterói.
Durante a sessão, algo inesperado aconteceu. O jovem incorporou uma entidade que se identificou como Caboclo das Sete Encruzilhadas. Disse que vinha para fundar uma nova religião — uma onde não haveria distinção de cor, classe ou origem. Onde espíritos de índios e escravos, rejeitados pelo espiritismo ortodoxo como “atrasados”, seriam bem-vindos.
No dia seguinte, na casa de Zélio, nasceu a primeira tenda de Umbanda: a Tenda Nossa Senhora da Piedade.
Esta é a história de fundação mais conhecida da Umbanda. Há outras versões, e historiadores debatem detalhes. Mas o essencial é verdade: em algum momento nas primeiras décadas do século XX, no Brasil — e apenas no Brasil — uma nova religião nasceu.
Uma religião que misturou tradições africanas trazidas por escravizados, tradições indígenas dos povos originários, catolicismo popular dos colonizadores, e espiritismo kardecista dos intelectuais. Uma religião que acolheu o que outras rejeitavam: os espíritos de negros velhos, índios, crianças, e até os temidos Exus.
A Umbanda é a religião mais brasileira que existe. Não veio de outro lugar; nasceu aqui, do encontro violento e criativo de povos que a história juntou nesta terra.
E ainda assim, é uma das religiões mais incompreendidas. Preconceito, desinformação e séculos de perseguição criaram uma imagem distorcida — “macumba”, “coisa do diabo”, “magia negra”. Rótulos que revelam mais sobre quem os usa do que sobre a Umbanda.
Este ensaio é uma introdução honesta a essa tradição — sua história, seus fundamentos, suas entidades, suas práticas, e seu lugar na espiritualidade brasileira.
Se você é umbandista querendo ver sua fé tratada com respeito, curioso querendo entender, ou vítima de preconceito querendo desmistificar — você está no lugar certo.
O Que É Umbanda

Definição
Umbanda é uma religião brasileira que combina elementos de tradições africanas (especialmente iorubá e banto), indígenas, católicas e espíritas kardecistas.
Características definidoras:
- Culto aos Orixás — Divindades africanas, sincretizadas com santos católicos
- Trabalho com entidades — Caboclos, Pretos-Velhos, Erês, Exus, Pombagiras
- Mediunidade — Incorporação de entidades por médiuns
- Ritual — Giras com pontos cantados, defumação, oferendas
- Caridade — Atendimento espiritual gratuito
A Umbanda é frequentemente descrita como sincretismo — mistura de tradições. Mas isso pode soar pejorativo, como se fosse colagem sem coerência. Melhor dizer: a Umbanda é síntese criativa — uma tradição genuína que emergiu do encontro de povos, não mera soma de partes.
O Que Umbanda NÃO É
Confusões comuns:
Não é Candomblé. São religiões diferentes. O Candomblé preserva tradições africanas mais “puras”, com rituais em línguas africanas, culto específico aos Orixás, e iniciação elaborada. A Umbanda é mais sincrética, incorpora entidades como Caboclos e Pretos-Velhos (ausentes no Candomblé tradicional), e é geralmente mais acessível.
Não é “macumba”. Essa palavra, originalmente neutra (referia-se a um instrumento musical), tornou-se pejorativo para qualquer religião afro-brasileira. É termo que carrega preconceito secular e deve ser evitado.
Não é “magia negra”. A Umbanda trabalha com forças espirituais, mas seu objetivo é caridade e evolução. Práticas para prejudicar outros contradizem seus princípios (embora existam desvios, como em qualquer religião).
Não é Quimbanda. A Quimbanda é tradição separada, focada em Exus e Pombagiras, com cosmologia e práticas distintas. Alguns a veem como “lado esquerdo” da Umbanda; outros como religião independente. É complexo e não há espaço aqui para detalhar.
Não é uma só coisa. Existem múltiplas vertentes de Umbanda — tradicional, esotérica, popular, de nação, etc. Não há dogma central ou autoridade única. O que descrevo aqui é uma síntese, não a “verdade” de todas as umbandas.
Origem e História

O Mito Fundador
A história de Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas é o mito fundador mais aceito da Umbanda.
15 de novembro de 1908: Em sessão espírita, Zélio incorpora uma entidade que os kardecistas tentam “doutrinar” (afastar) por ser espírito de índio — considerado “atrasado”. A entidade resiste e anuncia uma nova religião.
16 de novembro de 1908: Na casa de Zélio, a primeira sessão da nova religião. O Caboclo das Sete Encruzilhadas estabelece princípios: trabalho com espíritos de índios, negros e crianças; caridade gratuita; ausência de distinção de cor ou classe.
1908-1930s: Expansão gradual. Terreiros surgem no Rio de Janeiro e depois em outros estados. Sincretismo com catolicismo ajuda a evitar perseguição.
1930s-1960s: Crescimento e perseguição. A Umbanda era ilegal — terreiros eram invadidos, líderes presos. Gradualmente, ganha alguma legitimidade.
1966: Declarada “religião afro-brasileira” pelo governo. Começa reconhecimento formal.
1970s em diante: Expansão nacional, institucionalização (federações), maior visibilidade. Ainda enfrenta preconceito, mas com presença estabelecida.
Debate Histórico
Historiadores debatem:
- Zélio foi realmente o “fundador”? Práticas proto-umbandistas existiam antes de 1908. Zélio pode ter sido um organizador, não o inventor.
- A data é simbólica? 15 de novembro é dia da Proclamação da República. Coincidência ou construção posterior?
- Umbanda surgiu no Rio ou em vários lugares? Possivelmente, fenômeno similar aconteceu em diferentes lugares do Brasil simultaneamente.
O que é certo: nas primeiras décadas do século XX, uma forma religiosa distintamente brasileira cristalizou-se — combinando elementos que já existiam separadamente.
O Contexto: Por Que Aqui, Por Que Agora?
A Umbanda nasceu de condições específicas:
Herança africana: Milhões de escravizados trouxeram suas tradições religiosas — especialmente iorubás (que se tornaria Candomblé) e bantos. Essas tradições sobreviveram apesar de perseguição, adaptando-se.
Catolicismo popular: O catolicismo brasileiro era sincrético desde o início — misturado com práticas indígenas e africanas. Santos e Orixás já eram associados.
Espiritismo kardecista: Chegou ao Brasil no final do séc. XIX, trazendo conceitos de mediunidade, reencarnação e caridade que a Umbanda incorporou.
Urbanização: No início do séc. XX, massas migravam do campo para cidades. Populações desenraizadas buscavam comunidade e sentido. A Umbanda oferecia ambos.
Identidade nacional: O Brasil buscava definir-se como nação. A Umbanda, mistura única, podia ser vista como religião genuinamente brasileira.
Cosmologia: Orixás e a Estrutura do Sagrado

Olorum/Zambi e os Orixás
No topo da cosmologia umbandista está Olorum (ou Zambi) — o Deus supremo, criador de tudo.
Olorum é distante demais para ser acessado diretamente. Por isso, criou os Orixás — divindades que administram aspectos da criação e intermediam entre humanos e o divino.
Os Orixás na Umbanda são sincretizados com santos católicos — estratégia de sobrevivência dos escravizados que adoravam seus deuses sob disfarce de santos permitidos.
Os principais Orixás e seus sincretismos:
| Orixá | Domínio | Santo Católico |
|---|---|---|
| Oxalá | Criação, paz, fé | Jesus Cristo |
| Iemanjá | Mar, maternidade, fertilidade | Nossa Senhora |
| Ogum | Guerra, caminhos, ferro | São Jorge (RJ) / Santo Antônio (BA) |
| Xangô | Justiça, raio, pedreiras | São Jerônimo |
| Oxóssi | Caça, fartura, florestas | São Sebastião |
| Iansã | Ventos, tempestades, morte | Santa Bárbara |
| Oxum | Rios, amor, fertilidade | Nossa Senhora Aparecida |
| Nanã | Lama primordial, morte, anciãos | Sant’Ana |
| Omulu/Obaluaiê | Doença, cura, terra | São Lázaro / São Roque |
| Exu | Comunicação, caminhos, movimento | Identificado erroneamente com diabo (ver abaixo) |
Importante: Esses sincretismos variam por região. Em Salvador, Ogum é Santo Antônio; no Rio, é São Jorge. Não há “certo” universal.
As Linhas e Falanges
A Umbanda organiza as entidades em Linhas — grandes divisões sob regência de um Orixá — e Falanges — subdivisões dentro de cada Linha.
Exemplo simplificado:
LINHA DE OXÓSSI (Caboclos)
├── Falange de Caboclos das Matas
├── Falange de Caboclos de Pena
├── Falange de Caboclos das Águas
└── ...
LINHA DE PRETOS-VELHOS (Yorimás)
├── Falange do Congo
├── Falange de Angola
├── Falange de Moçambique
└── ...
Esse sistema varia enormemente entre terreiros. Não há organograma universal.
Os Sete Orixás e Sete Linhas
Uma sistematização comum (mas não única) fala em Sete Linhas da Umbanda:
- Linha de Oxalá — Fé, espiritualidade
- Linha de Iemanjá — Maternidade, mar
- Linha de Ogum — Demandas, proteção
- Linha de Oxóssi — Caboclos, natureza
- Linha de Xangô — Justiça, força
- Linha de Iansã — Eguns, transformação
- Linha de Africanos — Pretos-Velhos
Cada Linha é regida por um Orixá e contém falanges de entidades trabalhando sob sua vibração.
Atenção: Essa sistematização é uma entre várias. Umbanda não tem dogma unificado. Diferentes federações e terreiros organizam diferentemente.

Umbanda é Caridade
O CORAÇÃO
DA RELIGIÃO
Se a Umbanda tivesse que ser resumida em uma frase, seria esta: Umbanda é caridade. Os terreiros não cobram por atendimento espiritual. Médiuns não ganham dinheiro por incorporar. A religião existe para servir — curar, aconselhar, ajudar quem sofre. Quando alguém bate à porta de um terreiro em desespero, encontra acolhimento. Essa caridade não é abstrata; é concreta, semanal, comunitária. É a razão de existir da Umbanda.
As Entidades: Quem Trabalha na Umbanda

Caboclos
Os Caboclos são espíritos de índios — não necessariamente índios históricos específicos, mas espíritos que se apresentam na forma arquetípica do indígena brasileiro.
Características:
- Ligados à natureza, matas, rios
- Firmes, diretos, às vezes bruscos
- Trabalham com cura, limpeza, descarrego
- Usam cocares, penas, falam de forma característica
- Fumam charutos, bebem vinho ou cerveja (ritualisticamente)
Caboclos famosos:
- Caboclo das Sete Encruzilhadas (o fundador)
- Caboclo Pena Branca
- Caboclo Cobra Coral
- Caboclo Tupinambá
- Cabocla Jurema
Os Caboclos representam a força da terra brasileira, a conexão com a natureza, a resistência dos povos originários.
Pretos-Velhos
Os Pretos-Velhos são espíritos de negros escravizados — especialmente os anciãos, que sobreviveram à escravidão e acumularam sabedoria através do sofrimento.
Características:
- Curvados, falam devagar, chamam “filho/filha”
- Extremamente acolhedores, pacientes, sábios
- Trabalham com aconselhamento, cura, paciência
- Fumam cachimbo, bebem café ou vinho
- Sentam em tocos ou banquinhos baixos
Pretos-Velhos famosos:
- Pai João de Angola
- Pai Joaquim de Aruanda
- Vovó Maria Conga
- Vovó Catarina
- Pai Benedito
Os Pretos-Velhos representam a resistência, a sabedoria nascida do sofrimento, a dignidade sob opressão. São os avós espirituais do Brasil.
Crianças / Erês
Os Erês ou Crianças são espíritos que se manifestam na forma infantil — não necessariamente crianças que morreram, mas espíritos que trabalham nessa vibração de pureza.
Características:
- Brincalhões, alegres, inocentes
- Falam como crianças, fazem travessuras
- Trabalham com limpeza, cura de crianças, alegria
- Comem doces, refrigerantes, brinquedos
Crianças famosas:
- Cosme e Damião (sincretizados com os santos)
- Doum
- Crispim
- Mariazinha
As Crianças trazem leveza ao terreiro e lembram que a espiritualidade pode ser alegre.
Exus e Pombagiras
Os Exus e Pombagiras são as entidades mais incompreendidas — e as que geraram mais preconceito contra a Umbanda.
O que Exu É:
- Orixá mensageiro, senhor das encruzilhadas e da comunicação
- Entidades que trabalham na “esquerda” — com as energias mais densas
- Guardiões, protetores, executores de trabalhos
O que Exu NÃO É:
- O diabo cristão (identificação preconceituosa dos colonizadores)
- Espíritos do mal por natureza
- Demônios a serem temidos
Na cosmologia umbandista, Exus e Pombagiras são trabalhadores espirituais que lidam com energias que outras entidades não mexem. Fazem o “trabalho sujo” necessário — proteção, abertura de caminhos, combate espiritual.
Pombagiras são a versão feminina — entidades poderosas ligadas à sexualidade, sedução e proteção de mulheres.
Exus e Pombagiras famosos:
- Exu Tranca Ruas
- Exu Tiriri
- Exu Marabô
- Maria Padilha
- Pombagira Cigana
- Maria Molambo
A confusão com o diabo vem do colonizador europeu que, vendo uma entidade que não se encaixava no dualismo cristão (Deus bom, diabo mau), classificou-a como demoníaca. Esse preconceito persiste.
A Gira: O Ritual Umbandista
Estrutura Básica
A gira é a sessão ritual da Umbanda — o momento em que a comunidade se reúne, os médiuns incorporam, e o trabalho espiritual acontece.
Elementos de uma gira típica:
1. Abertura
- Defumação do terreiro (limpeza espiritual)
- Ponto cantado de abertura
- Saudação aos Orixás
- Firmação da segurança espiritual
2. Chamada das entidades
- Pontos cantados para cada linha que vai trabalhar
- Médiuns incorporam suas entidades
- Entidades se apresentam, saúdam
3. Trabalho
- Atendimento aos consulentes (pessoas que vêm buscar ajuda)
- Passes, limpezas, descarregos
- Conversas, conselhos
- Trabalhos específicos conforme necessidade
4. Subida das entidades
- Pontos de subida para cada linha
- Entidades se despedem
- Médiuns “desincorporam”
5. Fechamento
- Ponto de encerramento
- Prece final
- Saudação a Oxalá
Uma gira pode durar de 2 a 5 horas, dependendo do terreiro e do tipo de trabalho.
Os Pontos Cantados
Pontos cantados são canções rituais que chamam, homenageiam e despedem entidades. São a “trilha sonora” da Umbanda — e muito mais.
Os pontos têm poder. Acredita-se que as palavras e melodias movimentam energias espirituais. Cantar o ponto certo atrai a entidade certa; cantar errado pode atrapalhar.
Exemplo de ponto de Caboclo:
“Caboclo que vem da mata,
Vem de longe pra trabalhar
Ele vem de Aruanda
Ele é filho de Oxóssi, Caboclo Pena Dourada”
Exemplo de ponto de Preto-Velho:
“Preto-Velho venha me valer
Preto-Velho venha me ajudar
Com a força da Umbanda
E a luz de Oxalá”
Os pontos são transmitidos oralmente e há milhares deles. Cada terreiro tem seu repertório.
Os Pontos Riscados
Pontos riscados são símbolos gráficos — desenhados no chão com pemba (giz ritual) — que representam entidades e firmam trabalhos.
Cada entidade tem seu ponto riscado característico. O ponto funciona como “assinatura” espiritual e como ferramenta de trabalho.
Os pontos combinam elementos: setas (direção), cruzes (proteção), ondas (água), círculos (concentração), ferramentas (atributos da entidade).
Oferendas
Oferendas são presentes rituais às entidades — forma de agradecimento, pedido ou fortalecimento do vínculo.
Cada entidade tem preferências:
- Caboclos: Frutas, vinho, cerveja, charutos, velas verdes
- Pretos-Velhos: Café, vinho, cachimbo, velas brancas, feijoada
- Crianças: Doces, guaraná, brinquedos, velas rosa/azul
- Exus: Cachaça, charutos, carne, velas vermelhas/pretas, na encruzilhada
- Pombagiras: Champanhe, rosas vermelhas, espelho, batom
Importante: Oferenda não é “pagamento” ou “suborno” espiritual. É gesto de respeito, troca energética, fortalecimento de laço.
O Terreiro e Seus Elementos
O Espaço Sagrado
O terreiro (ou centro ou tenda) é o templo umbandista. Pode ser desde um cômodo simples até construção elaborada.
Elementos essenciais:
Congá: O altar, geralmente escalonado, contendo imagens de santos/Orixás, velas, flores, água, elementos das entidades. É o coração espiritual do terreiro.
Assistência: Área onde ficam os consulentes e visitantes — geralmente bancos ou cadeiras simples.
Gongá/terreiro propriamente dito: Área onde os médiuns trabalham — o espaço sagrado onde acontece a incorporação.
Atabaques: Tambores sagrados. Geralmente três (Rum, Rumpi, Lé), tocados pelos ogãs (tocadores).
Quarto de santo: Espaço reservado onde ficam os assentamentos (representações físicas dos Orixás).
Os Cargos no Terreiro
Terreiros têm organização hierárquica:
| Cargo | Função |
|---|---|
| Pai/Mãe de Santo | Líder espiritual e administrativo do terreiro |
| Pai/Mãe Pequena | Segundo(a) em comando |
| Cambonos/Cambones | Auxiliares dos médiuns incorporados |
| Ogãs | Tocadores de atabaque |
| Médiuns | Quem incorpora entidades |
| Filhos de fé | Membros da comunidade |
O Pai ou Mãe de Santo (Babalorixá/Ialorixá) é figura central — responsável pela condução espiritual do terreiro, iniciação de médiuns, e manutenção das tradições.
Vestimenta
O branco predomina na Umbanda — simbolizando paz, Oxalá, pureza espiritual.
Médiuns geralmente vestem:
- Roupa branca (calça/saia, camisa)
- Guias (colares de contas) específicas de suas entidades
- Às vezes, elementos das entidades (cocar de Caboclo, lenço de Preta-Velha)
A simplicidade da vestimenta reflete um princípio: na Umbanda, não há distinção de classe. O rico e o pobre vestem o mesmo branco.
Umbanda e Preconceito: Uma História de Resistência

A Perseguição Histórica
A Umbanda — como todas as religiões afro-brasileiras — enfrentou perseguição sistemática:
Período colonial: Práticas africanas eram proibidas. O sincretismo (disfarçar Orixás de santos) foi estratégia de sobrevivência.
República Velha: O Código Penal de 1890 criminalizava “espiritismo, magia e curandeirismo”. Terreiros eram invadidos, líderes presos, objetos sagrados apreendidos.
Era Vargas: Perseguição continuou. Umbanda era vista como “atraso”, incompatível com o Brasil “moderno” que se queria construir.
Décadas de 1940-60: Gradual organização e legitimação. Federações umbandistas buscaram reconhecimento. Em 1966, Umbanda foi reconhecida como “religião afro-brasileira”.
Atualidade: Perseguição oficial acabou, mas preconceito persiste. Terreiros são atacados (especialmente por neopentecostais), praticantes são discriminados, a religião é demonizada por muitos.
O Preconceito Contemporâneo
“Macumba”: Termo pejorativo usado para associar Umbanda a malefício. Revela ignorância e racismo.
Demonização: Igrejas neopentecostais frequentemente apresentam entidades umbandistas como demônios, realizando “exorcismos” e atacando a religião.
Ataques a terreiros: No Brasil do século XXI, terreiros ainda são invadidos, imagens destruídas, praticantes agredidos — frequentemente por motivação religiosa.
Invisibilidade: A Umbanda é sub-representada na mídia, na educação, no espaço público. Quando aparece, frequentemente é de forma estereotipada.
A Resistência
Apesar de tudo, a Umbanda persiste. É religião de resistência — nascida de povos que resistiram, mantendo-se viva através de séculos de opressão.
Hoje, umbandistas lutam por:
- Reconhecimento e respeito
- Fim da intolerância religiosa
- Ensino de história e cultura afro-brasileira
- Proteção legal dos terreiros
- Representação digna na mídia
Salve a Umbanda
A RELIGIÃO
DE TODOS
A Umbanda nasceu dizendo: aqui, não há distinção de cor, classe ou origem. Os espíritos que outras religiões rejeitavam como “atrasados” — índios, escravos, crianças — são aqui acolhidos e reverenciados. O rico e o pobre vestem o mesmo branco. O doutor e o analfabeto recebem o mesmo passe. Esta é a revolução silenciosa da Umbanda: em país de hierarquias brutais, criou espaço de igualdade radical perante o sagrado.

Vertentes da Umbanda

A Diversidade
Não existe uma Umbanda única. Existem umbandas — vertentes que se desenvolveram com ênfases diferentes:
Umbanda Tradicional/Popular: Mais próxima das origens, menos sistematizada, transmitida oralmente. Forte presença dos elementos africanos e indígenas.
Umbanda Branca: Ênfase no aspecto kardecista, menos rituais africanos, às vezes rejeita Exus ou os trabalha minimamente. Alguns a chamam de “Umbanda de mesa”.
Umbanda Esotérica: Incorpora elementos de ocultismo ocidental (Teosofia, cabala, astrologia). Mais sistematizada filosoficamente.
Umbanda de Nação/Almas e Angola: Mais próxima do Candomblé, com elementos rituais africanos mais preservados.
Umbanda Omolokô: Mistura de Umbanda com Candomblé de Angola.
Umbanda Sagrada: Sistematização contemporânea, com estrutura teológica elaborada.
Essas vertentes não são mutuamente exclusivas. Muitos terreiros combinam elementos de várias. Não há autoridade central para ditar a “verdadeira” Umbanda.
Unidade na Diversidade
O que une todas as umbandas:
- Caridade como princípio central
- Trabalho com entidades (Caboclos, Pretos-Velhos, etc.)
- Mediunidade de incorporação
- Elementos rituais básicos (gira, pontos, oferendas)
- Sincretismo de Orixás e santos
O que varia:
- Grau de influência africana vs. kardecista
- Sistematização teológica
- Quais entidades são trabalhadas e como
- Rituais específicos
Conclusão — Axé e Resistência
O Que a Umbanda Oferece
Percorremos uma religião genuinamente brasileira — nascida aqui, do encontro de povos que a história jogou juntos. O que emerge?
Uma espiritualidade de inclusão. Em país de exclusões brutais, a Umbanda disse: todos são bem-vindos. Espíritos de índios massacrados, negros escravizados, crianças — todos têm lugar e dignidade.
Uma prática de caridade concreta. Não caridade abstrata, mas semanal, comunitária, gratuita. Pessoas em sofrimento encontram acolhimento.
Uma forma de resistência cultural. A Umbanda preservou heranças que o colonizador tentou destruir. Praticar Umbanda é afirmar identidade brasileira em sua complexidade.
Uma cosmologia rica. Orixás, entidades, linhas, falanges — um universo espiritual elaborado que oferece explicação e consolo.
Uma comunidade. Em mundo de isolamento, o terreiro oferece pertencimento, família espiritual, rede de apoio.
Desafios
Preconceito persistente. Apesar de avanços, a demonização continua — especialmente por igrejas neopentecostais.
Mercantilização. Como em qualquer religião, há quem explore a fé alheia para ganho pessoal.
Diversidade sem unidade. A ausência de autoridade central dificulta resposta coordenada a ataques.
Transmissão. Jovens frequentemente abandonam a religião por pressão social ou falta de interesse.
O Convite
Se você é umbandista — saiba que sua fé é parte essencial da cultura brasileira e merece respeito.
Se você tem curiosidade — visite um terreiro de portas abertas. Observe com respeito. Pergunte com humildade.
Se você tinha preconceito — espero que este texto ajude a ver além dos estereótipos.
A Umbanda é religião de resistência, sobrevivência, e amor. Nasceu dos que foram oprimidos e oferece acolhimento a todos que sofrem.
“Umbanda é paz e amor,
É um mundo cheio de luz,
É a força que nos dá vida
E a grandeza nos conduz.”
Saravá! Axé!
Perguntas Frequentes
Umbanda: A Religião Brasileira — Orixás, Caboclos e a Síntese Sagrada
📚 Leitura Recomendada
Umbanda Religião Brasileira: Guia para leigos e iniciantes
Autor: Flávia Pinto (Autor)
Existem controvérsias quanto ao surgimento da Umbanda. Os mais antigos narram que as manifestações de espíritos surgiram anteriormente a data de 15 de novembro de 1908. Espíritos como Pretos Velhos, Caboclos, Exus, Malandros, Pombagiras e Crianças, que hoje reconhecemos como Entidades de Umbanda, manifestavam-se espontaneamente, sobretudo, em núcleos familiares, e já eram fruto da mais variada miscigenação brasileira. Hoje a Umbanda é praticada em todo o solo nacional como religião brasileira e traz em seu bojo o diverso ritualismo da cultura local, de acordo com a região do país em que ela esteja sendo realizada. Este processo de ter uma religiosidade multicultural, ao contrário do que muitos podem crer, enriquece-nos ainda mais e prova o quanto a Umbanda é uma tradição religiosa profundamente brasileira. A Umbanda foi cruelmente perseguida através da história, o que levou dirigentes e praticantes a serem presos por crime de charlatanismo e curandeirismo. Muitas mães e pais de santo foram perseguidos, e alguns chegaram a ser presos. Umbanda para leigos e iniciantes, focaliza pontos esclarecedores da religião para os que estão inseridos nos trabalhos espirituais e para os leigos que, não a entendendo, têm várias dúvidas ou ainda alimentam preconceitos.
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Umbanda de todos nós
Autor: W.W. da Matta e Silva (Autor)
Poucas vezes e por poucos foi aquilatada a importância desta obra.Editada há mais de 50 anos,seu autor é um divisor de águas dentro do Movimento Umbandista,pois o conceito sobre Umbanda só pode ser estabelecido se tomarmos Matta e Silva e UMBANDA DE TODOS NÓS como parâmetro.Antes,o Movimento Umbandista era considerado como simples fetichismo,como uma manifestação meramente folclórica,desordenada e confusa em seus rituais e doutrina.Depois de 1956,após sua publicação,ficou patente que a Umbanda trazia em seu bojo os mais antigos e importantes fundamentos Filosóficos,Científicos,Religiosos e Artísticos da humanidade.Era a Umbanda,realmente,a Religião-Primeva,a síntese incógnita desejada por muitos,mas compreendida em sua profundidade por raríssimos iniciados.Aqui,o leitor irá encontrar a verdadeira definição do que seja Umbanda,em seus mais puros conceitos,a origem real,científica e histórica desta palavra;o que é,realmente,o Orixá;quem é Exu e quais são as verdadeiras 7 Linhas ou 7 Vibrações espirituais.Define,com maestria,o que vêm a ser a mediunidade na Lei de Umbanda e quais as formas de apresentação dos espíritos de Caboclos,Pais-Velhos e Crianças.Ensina os mais corretos e positivos fundamentos sobre ritual,banhos de ervas e defumadores;as guias,os sinais riscados ou Lei de Pemba.Explica as diferenças fundamentais entre Elementais e Elementares,dando noções basilares sobre o Espírito -este ser desconhecido…Apesar do tempo passado,UMBANDA DE TODOS NÓS é atualizadíssima,pois seus conceitos ainda são reveladores para a maior parte dos umbandistas e figura ao lado de UMBANDA DO BRASIL,do mesmo autor e de UMBANDA -A PROTO-SÍNTESE CÓSMICA e FUNDAMENTOS HERMÉTICOS DE UMBANDA de seu legítimo discípulo,F.Rivas Neto,como as quatro obras mais importantes da literatura Umbandista.Devido ao árduo trabalho de sua vida e a importância desta e de suas obras,Matta e Silva deve ser colocado ao lado dos grandes mestres e magos das ciências herméticas e ocultas,sendo figura tão importante quanto a dos grandes patriarcas e hierofantes do passado.
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Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada
Autor: Rubens Saraceni (Autor)
ESTA OBRA DESEMPENHA A FUNÇÃO DE UM MANUAL QUE TRAZ UM VERDADEIRO CURSO PARA OS UMBANDISTAS E SIMPATIZANTES DA UMBANDA. TEM POR OBJETIVO DESPERTAR OS UMBANDISTAS PARA QUE DESENVOLVAM UMA CONSCIÊNCIA RELIGIOSA VERDADEIRAMENTE DE UMBANDA E TOTALMENTE CALCADA EM CONCEITOS PRÓPRIOS, FUNDAMENTADA NA EXISTÊNCIA DE UM DEUS ÚNICO (OLORUM) E NA MANIFESTAÇÃO ATRAVÉS DE SUAS DIVINDADES (OS SAGRADOS ORIXÁS OU TRONOS DE DEUS). POR ISSO, DOUTRINA E TEOLOGIA DE UMBANDA SAGRADA DESENVOLVERÁ UM ESTUDO TEOLÓGICO QUE, SE DEVIDAMENTE INCORPORADO AO CONHECIMENTO JÁ DISSEMINADO NO MEIO UMBANDISTA, AJUDARÁ MUITO NESSA UNIFORMIZAÇÃO DAS PRÁTICAS RITUAIS E DO ENSINO DOUTRINÁRIO DAS TENDAS E NA FORMAÇÃO DE UMA CONSCIÊNCIA DE UMBANDA. EIS ALGUNS DOS INÚMEROS TEMAS TRATADOS NESTE LIVRO: HISTÓRIA DA UMBANDA, UMBANDA: UMA RELIGIÃO COM SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS, DIFERENÇAS ENTRE UMBANDA, CANDOMBLÉ E KARDECISMO, MEDIUNIDADE, PONTOS DE FORÇA E OFERENDAS, A GÊNESE DA UMBANDA SAGRADA, TEOGONIA, AS SETE LINHAS DE UMBANDA, MISTÉRIOS DE UMBANDA, ELEMENTOS DE MAGIA, TEMPLO, CENTRO, TENDA OU TERREIRO, O SACERDÓCIO DE UMBANDA SAGRADA, ENTRE OUTROS. COM O ESTUDO DESTE LIVRO, OS UMBANDISTAS PREENCHERÃO UMA LACUNA E TERÃO UMA CHAVE PARA O ENTENDIMENTO DA IMPORTÂNCIA DA SUA RELIGIÃO.
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O candomblé da Bahia
Autor: Roger Bastide (Autor), Maria Isaura Pereira de Queiroz (Tradutor)
Roger Bastide realiza uma análise pioneira do candomblé, estudando o transe e a possessão, os cânticos, as danças e os ritos dessa religião afro-brasileira. O candomblé, como mostra o autor, postula uma filosofia do universo e uma concepção sofisticada do homem e do cosmo. Apresentado em 1957 como tese de doutorado na Sorbonne (ao lado de As religiões africanas no Brasil), este livro clássico é uma narrativa de grande fluência literária. Constitui leitura obrigatória para os iniciantes no assunto e, para os especialistas, uma oportunidade de reencontro com o pensamento do sociólogo francês.A compreensão da epistemologia afro-brasileira, evidenciada pelo candomblé, leva Bastide a indagar sobre as porções africanas recriadas no Brasil, que ele visa reconstituir como domínios dotados de relativa independência no conjunto mais amplo da sociedade. Traduzido por uma das grandes sociólogas brasileiras - Maria Isaura Pereira de Queiroz -, O candomblé da Bahia é apresentado aqui em edição revista e ampliada, com ilustrações e caderno de fotos.
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A Morte Branca do Feiticeiro Negro. Umbanda e Sociedade Brasileira
Autor: Renato Ortiz (Autor)
A incorporação do negro livre à sociedade que surgiu da Abolição produziu um fenômeno central da cultura brasileira: a fratura do universo religioso dos escravos e a assimilação de seus elementos pela tradição cristã. O resultado não foi a africanização do cristianismo nos trópicos, mas a cristianização das religiões africanas, que só assim puderam ser aceitas num ambiente dominado por uma elite que se pretendia européia. Em A Morte Branca do Feiticeiro Negro, as relações entre cultura e classes sociais no Brasil são analisadas pela inteligência viva e sensível de um dos nossos maiores intelectuais.
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