A Psicologia dos Mitos: Por Que Narrativas Antigas Ainda Moldam Quem Somos
Prometeu rouba o fogo dos deuses e é acorrentado a uma rocha, onde uma águia devora seu fígado eternamente. Perséfone é arrastada ao submundo e retorna a cada primavera. Buda abandona o palácio, enfrenta demônios sob a árvore e desperta. Moisés atravessa o deserto, sobe a montanha e desce com as tábuas da lei.
Histórias separadas por milênios e oceanos. Culturas que jamais se encontraram. E, ainda assim, a mesma estrutura se repete.
Por quê?
A resposta não está na história, mas na mente – a psicologia dos mitos. O mito não é uma explicação primitiva do mundo físico — é uma arquitetura da consciência humana. Uma linguagem que a psique desenvolveu para processar experiências que escapam à razão literal: morte, sofrimento, transformação, sentido.
Este ensaio é um convite a ler mitos de outra forma. Não como crenças a serem aceitas ou rejeitadas, mas como mapas simbólicos da experiência humana — mapas que continuam funcionando, mesmo quando não sabemos que os estamos usando.
O Mito Não Desapareceu — Apenas Mudou de Forma
A Ilusão da Superação Moderna
A modernidade se orgulha de ter deixado os mitos para trás.
Vivemos, supostamente, em um mundo guiado por dados, algoritmos e evidências empíricas. Templos viraram museus. Narrativas sagradas viraram “folclore”. A ciência explicou o que antes era mistério.
Essa narrativa é reconfortante. E é, ela mesma, um mito.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss passou décadas demonstrando que sociedades modernas não abandonaram o pensamento mítico — apenas o disfarçaram. O mito do progresso infinito, da tecnologia salvadora, do mercado autorregulado, da nação eleita — todos operam com a mesma lógica das cosmogonias antigas.
Mircea Eliade, historiador das religiões, cunhou o termo “camuflagem do sagrado” para descrever esse fenômeno. O sagrado não desaparece em sociedades seculares; ele se esconde em formas profanas. O cinema hollywoodiano repete jornadas do herói. Marcas constroem mitologias de origem. Ideologias políticas prometem paraísos terrenos.
O mito não morreu. Trocou de roupa.
Onde os Mitos Habitam Hoje
Observe com atenção e você os encontrará em toda parte:
Na política: Narrativas de fundação nacional, heróis libertadores, inimigos existenciais. “Make America Great Again” é um mito de retorno à era dourada — estrutura idêntica aos mitos de paraíso perdido.
Na tecnologia: A singularidade como escatologia. Elon Musk como Prometeu que rouba fogo (Mars) dos céus. Inteligência artificial como deus nascente ou demônio iminente.
No consumo: Marcas como totens tribais. Apple como culto de iniciados. Nike vendendo não tênis, mas a jornada do herói (“Just Do It”).
No desenvolvimento pessoal: A jornada do herói reembalada como “saia da zona de conforto”. O mito do self-made man. A narrativa de transformação radical em 30 dias.
Na ciência mal compreendida: Big Bang como mito de criação. Evolução como épica de ascensão. Multiverso como cosmologia especulativa vestida de física.
Não há nada necessariamente errado com isso. O problema surge quando não reconhecemos que estamos operando miticamente. Quando confundimos nossos mitos com fatos puros. Quando perdemos a capacidade de interpretá-los.
O Erro Moderno: Confundir Mito com Mentira

A Armadilha Semântica
Na linguagem cotidiana, “mito” virou sinônimo de falsidade.
“Isso é só um mito” significa “isso não é verdade”. Mitos sobre alimentação. Mitos sobre exercício. Mitos sobre investimentos. A palavra foi reduzida a “crença equivocada popular”.
Essa redução é um erro conceitual grave — e tem consequências práticas.
Quando descartamos mitos como “mentiras primitivas”, perdemos acesso a uma das mais sofisticadas tecnologias de processamento de sentido que a humanidade desenvolveu. É como jogar fora um telescópio porque ele não serve para martelar pregos.
O filósofo Paul Ricoeur distinguia entre explicação e compreensão. A ciência explica mecanismos causais. O mito oferece compreensão existencial. São registros diferentes, não competidores.
Perguntar se o mito de Prometeu é “verdadeiro” no sentido factual é como perguntar se a Nona Sinfonia de Beethoven é “verdadeira”. A pergunta não faz sentido. São categorias incompatíveis.
O Que os Mitos Realmente Respondem
Mitos não existem para explicar como o mundo funciona.
Existem para responder perguntas de outro tipo:
| Pergunta Mítica | Não é respondida por… | É respondida por… |
|---|---|---|
| Quem somos? | Biologia, DNA | Narrativas de origem e identidade |
| Por que sofremos? | Neurociência da dor | Mitos de queda e provação |
| O que vale uma vida? | Economia, estatística | Mitos de sacrifício e transcendência |
| Como enfrentar o desconhecido? | Manuais de procedimento | Mitos de jornada e iniciação |
| O que acontece quando morremos? | Medicina forense | Mitos de passagem e renascimento |
| Qual nosso lugar no cosmos? | Astronomia | Cosmogonias simbólicas |
Essas perguntas não são resolvidas por equações ou experimentos.
São perguntas de sentido, não de fato.
E o sentido não é encontrado — é construído. Mitos são ferramentas dessa construção.
O Paradoxo da Literalização
Aqui está a ironia: tanto o fundamentalista religioso quanto o cientificista radical cometem o mesmo erro. Ambos leem mitos literalmente.
O fundamentalista insiste que o mito é história factual. O cientificista insiste que, por não ser história factual, é mentira. Ambos perdem o ponto.
Joseph Campbell, mitólogo que dedicou a vida a esse estudo, resumiu o problema:
“O mito é o sonho público; o sonho é o mito privado.”
Ninguém pergunta se um sonho é “factualmente verdadeiro”. Perguntamos o que ele significa. O que revela sobre quem sonhou. Que mensagem traz do inconsciente.
Mitos pedem a mesma leitura.
SOFTWARE ANCESTRAL
A Mente Pensa em Mitos
Software Ancestral
A MENTE
PENSA EM MITOS
Antes de palavras, havia imagens. Antes de conceitos, havia histórias. O cérebro humano evoluiu contando narrativas ao redor do fogo por 200.000 anos — e apenas 5.000 com escrita. O mito não é decoração cultural; é o sistema operacional original da consciência.
Mito Como Estrutura Simbólica, Não Relato Histórico

Os Seis Mitos Universais
Antropólogos e mitólogos identificaram padrões que aparecem em todas as culturas documentadas. Não importa se estamos falando de aborígenes australianos, vikings escandinavos, maias mesoamericanos ou monges tibetanos — as mesmas estruturas narrativas emergem.
Isso não é coincidência. É arquitetura psíquica.
1. Mito de Origem (Cosmogonia)
Pergunta que responde: “De onde viemos? Por que existe algo em vez de nada?”
No princípio era o caos. Ou o vazio. Ou as águas primordiais. Ou o ovo cósmico. Um ato criador — palavra, separação, sacrifício — instaura a ordem.
Exemplos: Gênesis bíblico, Enuma Elish babilônico, Popol Vuh maia, Big Bang como cosmogonia secular.
2. Mito de Queda
Pergunta que responde: “Por que o mundo é imperfeito? Por que sofremos?”
Havia um estado original de perfeição — Éden, Era Dourada, tempo do sonho. Algo aconteceu — transgressão, esquecimento, fragmentação — e fomos expulsos. O sofrimento é consequência.
Exemplos: Adão e Eva, Prometeu e Pandora, queda das almas gnósticas, “perda da inocência” no desenvolvimento pessoal.
3. Mito do Herói
Pergunta que responde: “Como enfrentar desafios impossíveis? Como me tornar quem devo ser?”
Um chamado tira o protagonista do mundo comum. Há recusa, depois aceitação. Cruzamento do limiar, provas, aliados e inimigos. Descida ao abismo, confronto com a sombra, conquista do elixir. Retorno transformado.
Exemplos: Gilgamesh, Odisseu, Buda, Cristo, Luke Skywalker, Neo, Harry Potter.
4. Mito de Sacrifício
Pergunta que responde: “O que precisa morrer para que algo novo nasça?”
Algo precioso deve ser entregue. O deus morre para fertilizar a terra. O herói sacrifica seu conforto. O ego precisa morrer para o self emergir.
Exemplos: Osíris despedaçado e reconstituído, Cristo crucificado e ressurreto, Odin pendurado em Yggdrasil, o “morrer para o mundo” das tradições contemplativas.
5. Mito de Renascimento
Pergunta que responde: “É possível recomeçar? Existe segunda chance?”
Descida ao submundo e retorno. Morte simbólica e ressurreição. A noite escura da alma que precede a aurora. O casulo que precede a borboleta.
Exemplos: Perséfone e Hades, Inanna no submundo, Jonas no ventre da baleia, batismo como morte e renascimento, narrativas de recuperação de adicção.
6. Mito de Transcendência
Pergunta que responde: “Há algo além do visível? Qual o destino final?”
O herói que se torna deus. A alma que retorna à fonte. O ciclo que finalmente se completa. A gota que descobre ser o oceano.
Exemplos: Apoteose de Héracles, nirvana budista, moksha hindu, unio mystica cristã, singularidade tecnológica como escatologia secular.
Como Mitos Organizam a Consciência Coletiva
Esses padrões não são decoração cultural. São infraestrutura psíquica.
Quando uma cultura conta um mito de origem, ela está estabelecendo coordenadas existenciais: quem somos, de onde viemos, por que existimos. Essas coordenadas determinam valores, comportamentos, instituições.
O mito funciona como sistema operacional da consciência coletiva:
| Função | Como o Mito Executa |
|---|---|
| Orientação | Estabelece “norte” existencial — o que importa, o que não importa |
| Coesão | Cria identidade compartilhada — “nós” vs. “outros” |
| Regulação | Define comportamentos aceitáveis através de exemplos e contra-exemplos |
| Processamento | Oferece linguagem para experiências difíceis (luto, transição, crise) |
| Transmissão | Permite que sabedoria atravesse gerações em formato memorável |
Quando mitos tradicionais são abandonados sem substituição consciente, essas funções não desaparecem — são preenchidas por substitutos, frequentemente de pior qualidade.
A Psicologia do Mito: O Símbolo Fala Onde a Razão Cala
O Inconsciente Pensa em Imagens
Carl Jung revolucionou nossa compreensão do mito ao conectá-lo com a psicologia profunda.
Para Jung, o inconsciente não é apenas um depósito de memórias reprimidas (como Freud propunha). É um órgão criativo que pensa em imagens, símbolos e narrativas. Sonhos, fantasias, visões e lapsos não são ruído — são comunicação.
E a linguagem dessa comunicação é idêntica à linguagem do mito.
Jung observou que pacientes de diferentes culturas e backgrounds produziam sonhos com imagens notavelmente similares: serpentes, labirintos, figuras sábias, sombras perseguidoras, águas primordiais, árvores cósmicas. Imagens que apareciam também em mitologias que os pacientes jamais haviam estudado.
Disso surgiu o conceito de arquétipos: padrões estruturais herdados que organizam a experiência humana. Não conteúdos específicos, mas formas que se preenchem com material cultural local.
O arquétipo da Grande Mãe pode aparecer como Ísis, Maria, Kali, Gaia ou “a natureza” — mas a estrutura subjacente é a mesma. O arquétipo do Herói pode ser Gilgamesh, Jesus, Neo ou o protagonista de um videogame — a jornada é idêntica.
Por Que os Mesmos Mitos Reaparecem em Culturas Distantes
A questão intrigou estudiosos por séculos: como explicar a semelhança estrutural entre mitos de povos que jamais tiveram contato?
Três hipóteses principais foram propostas:
Hipótese Difusionista: Os mitos se espalharam a partir de uma fonte comum através de migração e comércio. Problema: não explica semelhanças entre culturas isoladas (aborígenes australianos e nórdicos, por exemplo).
Hipótese Psicológica (Jung): Os mitos emergem de estruturas psíquicas compartilhadas — o inconsciente coletivo. Humanos, independentemente de cultura, têm a mesma “hardware” mental que produz padrões similares.
Hipótese Estruturalista (Lévi-Strauss): Mitos são produtos da estrutura universal da mente humana, que opera por oposições binárias (natureza/cultura, cru/cozido, vida/morte). As mesmas operações lógicas produzem resultados similares.
Provavelmente, as três hipóteses capturam parte da verdade.
O que importa para nossos propósitos é a implicação prática: mitos funcionam porque ressoam com estruturas profundas da psique. Eles não são imposições externas arbitrárias, mas expressões de algo que já está em nós.
Por isso mitos “funcionam” mesmo quando não acreditamos neles. Por isso filmes que seguem a jornada do herói arrecadam bilhões. Por isso narrativas arquetípicas nos emocionam sem sabermos explicar por quê.
O Mito Como Sonho Coletivo
A fórmula de Campbell merece expansão:
“O mito é o sonho público; o sonho é o mito privado.”
Seus sonhos esta noite provavelmente conterão:
- Perseguições (fugir de sombra)
- Provas (enfrentar obstáculo impossível)
- Quedas (perder controle, cair no abismo)
- Voos (transcender limitações)
- Encontros com figuras numinosas (sábios, monstros, guias)
- Transformações (mudar de forma, morrer e renascer)
Esses são os mesmos elementos dos mitos universais.
A diferença é que mitos são sonhos que passaram pelo filtro cultural — foram elaborados, refinados, transmitidos. São sonhos que uma civilização sonhou coletivamente durante gerações, polindo-os até virarem narrativas poderosas.
Isso explica por que mitos continuam funcionando mesmo em sociedades que se consideram “pós-míticas”. A estrutura está na mente, não na cultura. A cultura apenas fornece o vocabulário.
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Quando Neo escolhe a pílula vermelha, você sente algo. Quando Frodo aceita carregar o anel, algo ressoa. Quando Simba confronta Scar, há catarse. Não porque você estudou mitologia — mas porque essas histórias espelham jornadas que você mesmo está vivendo, conscientemente ou não.
Tradições Espirituais Como Sistemas Mito-Simbólicos

A Gramática Simbólica das Tradições
Todas as grandes tradições espirituais operam através de sistemas mito-simbólicos.
O Cristianismo não é apenas um conjunto de doutrinas — é um universo narrativo: queda, encarnação, sacrifício, ressurreição, apocalipse, reino vindouro. Cada elemento é símbolo que processa experiências específicas.
O Budismo estrutura-se em torno de narrativas: o príncipe que abandona o palácio, a árvore da iluminação, os demônios de Mara, o despertar, os 40 anos de ensinamento. A doutrina emerge da narrativa, não o contrário.
O Judaísmo é incompreensível sem suas histórias: Abraão deixando sua terra, Moisés e o êxodo, o exílio e retorno, a aliança e suas renovações. A identidade judaica é narrativa antes de ser teológica.
Tradições xamânicas, sufismo islâmico, tantra hindu, taoísmo chinês — todas utilizam narrativas simbólicas como veículo primário de transmissão.
Leitura Literal vs. Leitura Simbólica
O mesmo texto pode ser lido de formas radicalmente diferentes:
| Elemento | Leitura Literal | Leitura Simbólica |
|---|---|---|
| Criação em 6 dias | Cosmologia factual | Estrutura de ordem emergindo do caos |
| Dilúvio universal | Evento geológico | Dissolução e renovação da consciência |
| Ressurreição | Reanimação de cadáver | Vitória da vida sobre entropia, transformação radical |
| Iluminação de Buda | Evento histórico único | Possibilidade inerente à consciência humana |
| Descida de Inanna | Viagem geográfica ao submundo | Processo de confronto com a sombra |
Nenhuma leitura é “errada” em abstrato. Mas elas produzem resultados muito diferentes.
A leitura literal tende a gerar:
- Conflito com conhecimento científico
- Exclusivismo (“nossa história é a única verdadeira”)
- Rigidez interpretativa
- Dificuldade de diálogo inter-tradições
A leitura simbólica permite:
- Compatibilidade com conhecimento contemporâneo
- Reconhecimento de verdades em múltiplas tradições
- Flexibilidade e profundidade interpretativa
- Aplicação psicológica prática
O Problema Não É o Mito — É a Interpretação
Quando tradições espirituais são lidas exclusivamente de forma literal, surgem os problemas que a modernidade corretamente critica:
- Conflito com ciência (criacionismo vs. evolução)
- Intolerância (nossa revelação invalida a sua)
- Violência justificada (guerra santa, purificação)
- Estagnação (se o texto é literal, não pode ser reinterpretado)
Mas esses problemas não são do mito em si. São de uma hermenêutica empobrecida — uma forma de leitura que perdeu a chave simbólica.
O místico medieval Meister Eckhart foi julgado por heresia por propor leituras simbólicas de doutrinas cristãs. O filósofo judeu Maimônides foi atacado por interpretar textos bíblicos alegoricamente. O sufi Al-Hallaj foi executado por experiências místicas que transcendiam a literalidade corânica.
Em todas as tradições, houve tensão entre literalistas e simbolistas. A história tende a dar razão aos segundos — mas frequentemente tarde demais.
Quando o Mito Se Torna Perigoso: Dogma e Manipulação
De Símbolo a Verdade Absoluta
O mito cumpre sua função quando é reconhecido como símbolo.
Ele se torna perigoso quando é tratado como verdade literal absoluta.
Nesse ponto, mito deixa de ser linguagem e se transforma em dogma.
A transição é sutil e frequentemente inconsciente:
- Origem: Narrativa simbólica que processa experiência coletiva
- Institucionalização: Narrativa adotada por estrutura de poder
- Literalização: Símbolos tratados como fatos históricos
- Dogmatização: Interpretação oficial declarada única válida
- Instrumentalização: Narrativa usada para controle social
Esse processo ocorreu em virtualmente todas as tradições religiosas. Ocorre também em ideologias seculares.
O “mito do progresso” — a ideia de que a história caminha inevitavelmente para um futuro melhor — funcionou como dogma secular por séculos. Justificou colonialismo (“levamos civilização”), industrialização predatória (“sacrifício necessário”), e tecno-utopismo (“a tecnologia resolverá tudo”).
Mitos Políticos e Ideológicos Contemporâneos
O século XX demonstrou tragicamente o poder dos mitos políticos literalizados:
O Mito da Raça Eleita: Narrativa de povo escolhido com missão cósmica. Quando literalizado e biologizado, produziu nazismo, apartheid, limpezas étnicas.
O Mito do Paraíso Terrestre: Narrativa de sociedade perfeita realizável na história. Quando literalizado, justificou totalitarismos de esquerda e direita — “o fim justifica os meios” para alcançar a utopia.
O Mito do Inimigo Absoluto: Narrativa de força maligna que explica todo sofrimento. Quando literalizado, produz bodes expiatórios, perseguições, guerras santas seculares.
O Mito do Grande Líder: Narrativa do herói salvador que resolverá todos os problemas. Quando literalizado, gera cultos de personalidade e abdicação de responsabilidade cidadã.
Esses não são “erros de raciocínio” corrigíveis com mais informação. São mitos operando inconscientemente — com todo seu poder mobilizador, mas sem o reconhecimento que permitiria interpretação crítica.
A Vacina: Consciência Mítica
O antídoto não é eliminar mitos — isso é impossível e indesejável.
O antídoto é desenvolver consciência mítica: a capacidade de reconhecer quando estamos operando miticamente e de interpretar nossos mitos em vez de sermos vividos por eles.
Isso requer:
- Reconhecimento: Perceber que narrativas que parecem “fatos óbvios” podem ser mitos disfarçados
- Suspensão: Criar distância crítica sem descarte imediato
- Interpretação: Perguntar “que função essa narrativa cumpre?” em vez de “isso é verdade?”
- Avaliação: Determinar se o mito está servindo à vida ou à morte, à abertura ou ao fechamento
- Escolha: Decidir conscientemente quais mitos queremos habitar
Jung chamava esse processo de “tornar consciente o inconsciente”. É trabalho para toda a vida.
INTERPRETAÇÃO É LIBERDADE
Ver o Mito Não É Destruí-lo
Ver o mito não é destruí-lo
CONSCIÊNCIA
TRANSFORMA PRISÃO EM BÚSSULA
Reconhecer que uma narrativa é mítica não a destrói. Pelo contrário: liberta seu potencial. O mito inconsciente nos controla; o mito consciente nos orienta. A diferença entre prisão e bússola está na capacidade de interpretação.
Conclusão — Ler Mitos É Aprender a Ler a Si Mesmo

O Caminho da Interpretação Consciente
Este ensaio propôs uma forma específica de se relacionar com mitos:
Nem a aceitação literal ingênua, que os transforma em dogmas.
Nem a rejeição cientificista arrogante, que os descarta como lixo.
Mas a interpretação simbólica consciente, que preserva sua riqueza sem sacrificar a razão.
Essa abordagem não é nova. É a leitura que os próprios criadores de mitos provavelmente tinham em mente — antes que instituições literalizassem o que era linguagem.
Ler mitos simbolicamente é, em última análise, aprender a ler a si mesmo.
Os mitos que mais nos atraem revelam algo sobre onde estamos na jornada. O herói que parte? Você está sendo chamado a deixar o familiar. O herói no abismo? Você está atravessando crise de transformação. O herói que retorna com o elixir? Você tem algo a oferecer que emergiu do seu sofrimento.
Jung chamava esse processo de trabalho com mitos pessoais de “individuação” — a jornada de se tornar quem você é.
Como Ler um Mito Simbolicamente: 5 Passos
Para prática imediata, um protocolo:
1. Suspenda o julgamento literal
Não pergunte “isso aconteceu?”. Pergunte “o que isso significa?”. Trate o mito como sonho — rico em símbolos, não em fatos.
2. Identifique os elementos arquetípicos
Quem é o herói? Qual é o chamado? Onde está o limiar? Quem são os aliados e inimigos? O que é o tesouro buscado? Qual é o abismo a ser atravessado?
3. Conecte com experiências universais
Que situação humana essa narrativa espelha? Nascimento, morte, iniciação, perda, descoberta, transformação?
4. Observe ressonâncias pessoais
Onde essa história toca sua própria vida? Que personagem você é? Que fase da jornada você está vivendo?
5. Extraia a sabedoria prática
Que orientação essa narrativa oferece? O que o mito sugere sobre como atravessar essa experiência?
Próximos Passos na Série
Este ensaio estabeleceu a gramática básica para leitura de mitos.
Nos próximos textos da série “Tradições do Sagrado”, aplicaremos essa gramática a tradições específicas:
- O mito do herói em profundidade: de Gilgamesh a Luke Skywalker
- Mitos de morte e renascimento: Osíris, Perséfone, Cristo
- A Grande Mãe: Ísis, Maria, Kali e o feminino arquetípico
- Mitos de sabedoria: Salomão, Buda, Lao Tzu
- Mitos contemporâneos: ficção científica como mitologia moderna
Não para repetir narrativas antigas como verdades literais.
Mas para aprender a lê-las com maturidade — e, ao fazê-lo, ler a nós mesmos.
Perguntas Frequentes
A Psicologia dos Mitos: Por Que Narrativas Antigas Ainda Moldam Quem Somos
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