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Você conhece essa sensação.

Acordar às três da manhã com o coração acelerado — mas sem saber por quê. Sentir que algo terrível está prestes a acontecer — mas não conseguir identificar o quê. Viver em estado de alerta constante — mesmo quando, objetivamente, não há perigo à vista.

Não é um predador específico. Não é uma ameaça concreta. Não é um problema que você possa resolver e seguir em frente.

É um medo de tudo e de nada ao mesmo tempo.

Se você reconhece essa experiência, saiba que não está enlouquecendo. O que você sente tem nome: medo líquido. É um conceito desenvolvido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever uma condição distintiva da contemporaneidade — um medo difuso, contínuo, sem objeto claro e, por isso mesmo, impossível de resolver.

Na era da hiperatenção — marcada por fluxo incessante de informações, notificações constantes e urgência fabricada — esse medo encontra ambiente perfeito para prosperar. Quanto mais vigilantes estamos, mais vulneráveis nos tornamos. Quanto mais informação consumimos, menos seguros nos sentimos.

Tabela de conteúdos

O Que Bauman Entende Por Medo Líquido

A Transformação Histórica do Medo

O medo é companheiro antigo da humanidade. Desde que existimos, tememos. Mas a natureza do medo mudou radicalmente.

Durante a maior parte da história humana, medos eram concretos e localizáveis:

  • O predador na floresta
  • O exército inimigo se aproximando
  • A doença com sintomas visíveis
  • A fome quando a colheita falhava
  • A violência do vizinho ou do senhor

Esses medos eram terríveis — mas tinham vantagens cognitivas importantes. Você sabia o quê temer. Podia avaliar o risco. Podia tomar medidas de proteção. E quando o perigo passava, o medo passava junto.

Bauman chama isso de medo sólido: medo com objeto definido, que permite resposta específica e que termina quando a ameaça é neutralizada.

A Liquefação do Medo

Na modernidade líquida, o medo se transforma. Bauman descreve essa mudança em sua obra “Medo Líquido”:

O medo líquido não tem objeto claro. Você sente ameaça — mas não consegue apontar de onde vem. Sente que algo está errado — mas não sabe o quê. Vive em estado de alerta — mas não há para onde correr.

Características do medo líquido:

AspectoMedo SólidoMedo Líquido
ObjetoDefinido, localizávelDifuso, impossível de localizar
DuraçãoEpisódico (começa e termina)Contínuo (estado permanente)
RespostaAção específica possívelNenhuma ação resolve
ResoluçãoPerigo passa → medo passaMedo persiste independente de eventos
NaturezaReação a ameaçaEstado de ser

O Medo Como Condição, Não Como Episódio

A diferença crucial é esta: o medo sólido é episódio — acontece, você responde, ele passa. O medo líquido é condição — é o modo como você existe no mundo.

Você não “tem” medo líquido da mesma forma que tem medo de um cachorro bravo. Você vive em medo líquido. É o ar que respira, o ambiente em que se move, o fundo constante da experiência.

Bauman observa que esse medo se torna “segunda natureza”:

As Fontes do Medo Líquido Contemporâneo

A Tríade do Medo

Bauman identifica três fontes principais de medo na contemporaneidade, todas interconectadas:

1. Medo da inadequação pessoal

O medo de não ser suficiente. De ficar para trás. De se tornar obsoleto, irrelevante, descartável.

Na sociedade do descarte (tema de outro ensaio desta série), esse medo é estrutural. O sistema comunica constantemente: você é útil enquanto performa. No momento em que parar de performar, será substituído.

2. Medo do outro

O medo de pessoas que você não conhece, não entende, não consegue prever. Estranhos, imigrantes, pessoas de outros grupos, qualquer um que pareça “diferente”.

Bauman observa que, paradoxalmente, quanto mais diversas se tornam as sociedades, mais intenso pode ser esse medo — porque a diversidade aumenta a imprevisibilidade.

3. Medo de forças impessoais

O medo de sistemas que afetam sua vida mas que você não controla e mal compreende. Mercados financeiros, algoritmos, mudanças climáticas, pandemias, decisões políticas tomadas longe de você.

Esse medo é especialmente líquido porque seu objeto é genuinamente difuso. Como você “enfrenta” o mercado global? Como você “luta” contra o algoritmo?

A Interconexão dos Medos

Essas três fontes se alimentam mutuamente:

O medo de forças impessoais (economia instável) intensifica o medo de inadequação (preciso me reinventar constantemente). O medo de inadequação intensifica o medo do outro (ele pode tomar meu lugar). O medo do outro justifica demandas por segurança que aumentam forças impessoais de controle.

O resultado é um sistema de medo que se auto-perpetua — cada medo alimentando os outros em ciclo que não tem ponto de saída óbvio.

Medo Derivado: O Medo de Ter Medo

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Ameaça sem Rosto

O MEDO QUE

NÃO PODE SER VENCIDO

O medo líquido não tem objeto para atacar, não tem fonte para eliminar, não tem fim para alcançar. Você não pode vencer o que não consegue ver. Não pode fugir do que está em toda parte. O máximo que pode fazer é aprender a viver dentro dele — reconhecendo que a ansiedade difusa não é falha sua, mas condição do tempo em que vivemos.

A Hiperatenção Como Amplificador do Medo

O Medo Líquido na Era da Hiperatenção

O Ambiente da Vigilância Permanente

Na era da hiperatenção, o medo líquido encontra seu amplificador perfeito.

Hiperatenção é o estado de vigilância fragmentada constante — atenção que nunca descansa, mas também nunca se aprofunda. É estar sempre “ligado”, sempre checando, sempre monitorando múltiplos fluxos de informação simultaneamente.

Características do ambiente de hiperatenção:

  • Fluxo incessante de informações (24/7, sem pausa)
  • Notificações constantes demandando atenção imediata
  • Múltiplas narrativas concorrentes sobre os mesmos eventos
  • Urgência fabricada (“breaking news” a cada minuto)
  • Impossibilidade de “estar em dia” (sempre há mais para consumir)

Esse ambiente é estruturalmente incompatível com paz mental. A vigilância constante mantém o sistema nervoso em estado de alerta — mesmo quando não há ameaça concreta.

O Paradoxo da Informação

Há um paradoxo central na relação entre informação e medo:

Intuitivamente, esperamos que mais informação produza mais segurança. Se eu souber o que está acontecendo, posso me preparar, me proteger, agir adequadamente.

Na prática, o excesso de informação frequentemente produz mais medo, não menos.

Por quê?

1. Ampliação da percepção de risco. Você fica sabendo de ameaças que antes nem conheceria. Crimes em cidades distantes, doenças raras, catástrofes em outros continentes — tudo entra no seu campo de percepção como se fosse próximo e relevante.

2. Fragmentação do entendimento. Informação em excesso, especialmente fragmentada (tweets, headlines, notificações), impede compreensão profunda. Você sabe “que” algo aconteceu, mas não entende contexto, causas, probabilidades reais.

3. Impossibilidade de hierarquização. Quando tudo é “urgente” e “importante”, nada é priorizável. Você não consegue distinguir ameaça real de ruído. Tudo parece igualmente perigoso.

4. Sensação de impotência. Saber de problemas globais que você não pode resolver produz impotência, não empoderamento. O conhecimento sem agência gera ansiedade.

Pesquisa da American Psychological Association (2022) encontrou correlação direta: pessoas que consomem mais notícias relatam níveis mais altos de ansiedade e sensação de falta de controle — mesmo controlando para outros fatores.

O Ciclo do Doomscrolling

O termo “doomscrolling” (rolar compulsivamente por notícias negativas) captura um fenômeno específico da era da hiperatenção.

O ciclo funciona assim:

O doomscrolling é tentativa de resolver medo líquido através de informação — mas o medo líquido não pode ser resolvido por informação porque não tem objeto definido. Mais informação apenas expande o campo de ameaças percebidas.

O Modelo de Negócio do Medo

A intensificação do medo não é acidental. É funcional para o modelo de negócio da economia da atenção.

Notícias alarmantes geram mais engajamento que notícias neutras. Medo mantém pessoas rolando, checando, voltando para ver “o que aconteceu”. Ansiedade é monetizável — cada refresh ansioso é oportunidade de anúncio.

O jornalista Rolf Dobelli observa:

Manifestações Cotidianas do Medo Líquido

O Medo No Corpo

O medo líquido não é apenas conceito abstrato — ele se manifesta fisicamente.

O sistema nervoso não distingue bem entre ameaça concreta e ameaça difusa. Ambas ativam respostas de estresse. A diferença é que ameaça concreta termina (e o corpo se recupera), enquanto ameaça difusa permanece (e o corpo nunca sai do estado de alerta).

Manifestações físicas comuns:

SintomaMecanismoRelação com Medo Líquido
InsôniaSistema em alerta não “desliga”Vigilância continua mesmo durante a noite
Tensão muscular crônicaCorpo preparado para luta/fugaPreparação constante para ameaça que não chega
FadigaGasto energético da vigilânciaEstado de alerta é metabolicamente custoso
Problemas digestivosSistema nervoso afeta intestinoEstresse crônico desregula digestão
PalpitaçõesAtivação cardiovascularCoração preparado para ação que não é necessária

A Organização Mundial de Saúde estima que transtornos de ansiedade afetam 301 milhões de pessoas globalmente (2019) — um aumento de 25% desde a pandemia. Nem toda ansiedade é medo líquido, mas a condição descrita por Bauman contribui significativamente para esses números.

O Medo Nas Decisões

O medo líquido afeta como tomamos decisões — frequentemente de formas que não percebemos.

Paralisia decisória. Quando qualquer escolha parece arriscada e o futuro parece imprevisível, não escolher pode parecer mais seguro que escolher. O medo líquido produz procrastinação existencial.

Hipervigilância em escolhas. Pesquisar obsessivamente antes de decisões pequenas. Ler todas as reviews, consultar todos os especialistas, considerar todos os cenários — porque qualquer erro parece catastrófico.

Escolhas defensivas. Optar sempre pelo que parece “mais seguro” mesmo quando há boas razões para arriscar. Evitar mudanças, novidades, oportunidades que envolvam incerteza.

Consumo de segurança. Gastar recursos (tempo, dinheiro, energia) tentando comprar segurança — seguros, sistemas de proteção, produtos que prometem reduzir risco.

O Medo Nos Relacionamentos

O medo líquido permeia como nos relacionamos com outros — tema conectado ao ensaio “Afeto Líquido” desta série.

Desconfiança default. Quando o mundo parece ameaçador, pessoas parecem ameaçadoras. O outro é visto primeiro como risco potencial, depois (talvez) como possível aliado.

Dificuldade de vulnerabilidade. Abrir-se a alguém é arriscado. Em ambiente de medo, a tentação é se proteger, não se expor. Relacionamentos superficiais parecem mais seguros que profundos.

Medo de abandono amplificado. Se tudo é instável e qualquer um pode desaparecer, o medo de perder pessoas se intensifica. Isso pode produzir apego ansioso ou, defensivamente, desapego preventivo.

O Medo Na Identidade

O medo líquido afeta como nos vemos — tema conectado ao ensaio “Identidade Fragmentada” desta série.

Medo de não ser suficiente. A inadequação como estado permanente. Nunca bom o bastante, nunca atualizado o bastante, nunca relevante o bastante.

Medo de exposição. O que acontece se descobrirem quem eu “realmente” sou? O cancelamento como ameaça difusa que paira sobre toda performance pública.

Vigilância Infinita

O PREÇO

DE NUNCA DESCANSAR

O medo líquido mantém você em alerta permanente. Seu corpo não distingue ameaça real de ameaça imaginada — ambas custam a mesma energia. Você acorda cansado, vive tenso, dorme mal. A vigilância constante contra o que nunca ataca claramente é o trabalho mais exaustivo que existe — e não tem fim de expediente.

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A Política do Medo Líquido

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Medo Como Recurso Político

Bauman dedica atenção significativa às implicações políticas do medo líquido. Esta é uma de suas contribuições mais importantes.

A Economia Política da Segurança

O medo líquido cria demanda por “segurança” — e essa demanda é politicamente explorável.

Promessas de proteção. Líderes que prometem eliminar ameaças (mesmo difusas, mesmo mal definidas) ganham apelo. “Eu vou te proteger” é mensagem poderosa para quem vive em medo constante.

Designação de inimigos. O medo difuso é ansioso por objeto. Quando líderes apontam inimigos específicos (imigrantes, “elites”, grupos ideológicos), o medo líquido encontra forma temporária — alívio cognitivo, mesmo que ilusório.

Justificação de controle. Medidas de vigilância, restrição de liberdades, expansão do aparato de segurança ganham legitimidade quando a população vive em medo. O estado de exceção se normaliza.

O Paradoxo da Segurança

Bauman identifica um paradoxo crucial: quanto mais segurança é oferecida, mais medo é produzido.

Por quê? Porque cada medida de segurança confirma que há algo a temer. Cada nova fechadura diz: “há ladrões”. Cada novo sistema de vigilância diz: “você está sendo observado por razão”. Cada promessa de proteção diz: “a ameaça é real”.

Medo e Erosão Democrática

Bauman alerta que sociedades governadas pelo medo tendem a enfraquecer práticas democráticas.

Demanda por soluções rápidas. A democracia é lenta, deliberativa, cheia de compromissos. O medo quer ação imediata. Líderes que prometem “resolver” rapidamente ganham vantagem sobre processos democráticos lentos.

Intolerância à complexidade. O medo prefere explicações simples (um inimigo, uma causa, uma solução). A democracia requer tolerância à complexidade e ao desacordo. O medo corrói essa tolerância.

O Medo Líquido Na Era Algorítmica

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Quando Algoritmos Encontram Ansiedade

A conexão entre medo líquido e algoritmos (tema de outro ensaio desta série) merece atenção específica.

Algoritmos de redes sociais e portais de notícias são otimizados para engajamento. E poucos estados emocionais geram mais engajamento que o medo.

Conteúdo que provoca medo:

  • É compartilhado mais rapidamente (urgência)
  • Gera mais comentários (reação emocional)
  • Mantém pessoas rolando (busca de informação)
  • Traz pessoas de volta (verificar “o que aconteceu”)

O resultado: algoritmos tendem a amplificar conteúdo que gera medo porque esse conteúdo “performa” melhor nas métricas que importam para as plataformas.

A Personalização do Medo

Algoritmos não apenas amplificam medo — eles o personalizam.

Se você demonstra interesse (engajamento) em certo tipo de conteúdo alarmante, o algoritmo mostra mais daquilo. Isso cria bolhas de medo personalizadas:

  • Quem se preocupa com saúde vê mais ameaças de saúde
  • Quem se preocupa com economia vê mais ameaças econômicas
  • Quem se preocupa com violência vê mais ameaças de violência

O medo líquido, já difuso por natureza, ganha sabores específicos para cada pessoa — mas a estrutura de vigilância constante e ansiedade irresolvível é a mesma.

O Feedback Loop

Existe um ciclo de retroalimentação entre medo líquido e consumo digital:

O medo líquido encontrou, na era algorítmica, sua máquina de perpetuação perfeita.

Limites e Cuidados Conceituais

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O Que o Medo Líquido Não Significa

É importante estabelecer o que o conceito de Bauman não afirma:

Não significa que medos são ilusórios. Riscos reais existem. Crises reais acontecem. Ameaças concretas merecem atenção. O conceito de medo líquido não nega a realidade de perigos — ele analisa por que o medo persiste e se expande mesmo quando não há perigo imediato.

Não significa que ansiedade é “frescura”. Bauman está fazendo análise sociológica, não julgamento moral. Dizer que o medo líquido é condição estrutural não é dizer que quem sente medo está exagerando ou sendo fraco.

Não significa que basta “entender” para parar de sentir. Conhecimento conceitual não elimina experiência emocional. Você pode entender perfeitamente o medo líquido e ainda assim viver nele. A compreensão ajuda — mas não é cura mágica.

A Diferença Entre Sociologia e Psicologia

O medo líquido é conceito sociológico, não psicológico.

Bauman analisa condições sociais que produzem medo difuso — não mecanismos psicológicos individuais. Ele está interessado em por que sociedades inteiras vivem em estado de ansiedade, não em por que indivíduos específicos desenvolvem transtornos de ansiedade.

Isso significa:

  • O conceito complementa (não substitui) análises psicológicas
  • Questões de saúde mental individual requerem abordagem individual
  • A crítica de Bauman é às estruturas, não às pessoas que sofrem nelas

Quando Buscar Ajuda

Se seu medo causa sofrimento significativo ou interfere em atividades básicas (trabalho, relacionamentos, autocuidado), isso vai além do que análise sociológica pode abordar.

O medo líquido é condição compartilhada — mas algumas pessoas precisam de suporte específico para navegar essa condição.

Sinais de que suporte profissional pode ser necessário:

  • Ataques de pânico frequentes
  • Incapacidade de funcionar em atividades normais
  • Pensamentos intrusivos constantes sobre catástrofes
  • Isolamento social por medo
  • Uso de substâncias para gerenciar ansiedade

Convivendo Com Incerteza: Caminhos Possíveis

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A Impossibilidade de Eliminar o Medo

O medo líquido é condição estrutural da modernidade líquida. Enquanto vivemos em sociedades de incerteza permanente, competição constante e mudança acelerada, o medo difuso estará presente.

O que Bauman sugere é reconhecer a natureza do medo — como primeiro passo para não ser completamente dominado por ele.

Reduzir Ruído, Não Informação

Uma distinção importante: o problema não é informação — é ruído.

Informação relevante, contextualizada, que permite ação ou compreensão genuína pode reduzir medo (transformando-o de líquido em mais sólido, mais tratável).

Ruído — fragmentos de alarme sem contexto, urgências fabricadas, fluxo incessante de ameaças sem hierarquização — amplifica o medo líquido.

Práticas para reduzir ruído:

  • Fontes curadas em vez de feeds infinitos
  • Consumo de análise em vez de breaking news
  • Momentos definidos em vez de verificação constante
  • Notícias locais (onde você pode agir) além de globais (onde apenas assiste)

Recuperar Atenção Sustentada

O medo líquido prospera na atenção fragmentada. A vigilância constante e superficial é seu ambiente ideal.

Práticas de atenção sustentada — foco prolongado em uma coisa, sem interrupção — podem funcionar como contra-ambiente:

  • Leitura longa (livros, não artigos fragmentados)
  • Práticas contemplativas (meditação, oração, caminhada silenciosa)
  • Trabalho profundo (períodos de concentração sem notificações)
  • Conversas longas (presença não fragmentada com outra pessoa)

Essas práticas não eliminam o medo — mas criam espaços onde ele não domina completamente.

Fortalecer Vínculos

O medo líquido isola. A ansiedade difusa dificulta confiança e vulnerabilidade.

Paradoxalmente, vínculos genuínos — mesmo que não eliminem o medo — fornecem contexto onde o medo pode ser suportado, compartilhado, relativizado.

Bauman:

Isso não significa que relacionamentos “curem” ansiedade. Significa que enfrentar o medo líquido sozinho é mais difícil do que enfrentá-lo com outros que entendem a condição compartilhada.

Aceitar Incerteza Como Condição

A aceitação mais difícil — e possivelmente mais necessária — é reconhecer que incerteza não é problema a ser resolvido.

A modernidade líquida é incerta. O futuro é imprevisível. Riscos existem. Você não pode controlar tudo. Nenhuma quantidade de vigilância tornará a vida segura.

Essa aceitação não é resignação passiva. É reconhecimento realista que libera energia gasta em tentativas impossíveis de controle total.

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Nomear é Começar

O PRIMEIRO

PASSO É RECONHECER O QUE VOCÊ SENTE

O medo líquido prospera no silêncio conceitual. Enquanto você não sabe o que sente, ele domina invisível. Nomeá-lo não o elimina — mas muda a relação. Você deixa de ser vítima passiva de ansiedade incompreensível e se torna alguém que reconhece uma condição compartilhada. O nome não é cura. Mas é começo de lucidez.

Conclusão: Lucidez Como Forma de Resistência

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O Diagnóstico

O medo líquido é condição estrutural da modernidade líquida.

Ele não tem objeto claro. Não permite resposta definitiva. Não termina quando você “resolve” algo. É estado permanente, não episódio. É o fundo constante da experiência contemporânea.

Na era da hiperatenção, esse medo encontra seu amplificador perfeito. Fluxo incessante de informação alarmante, algoritmos otimizados para engajamento via medo, impossibilidade de “estar em dia” com todas as ameaças — tudo isso intensifica uma ansiedade que já seria difusa.

O Que Não Funciona

Não funciona tentar eliminar o medo através de mais informação. Isso alimenta o ciclo.

Não funciona tentar comprar segurança. Cada produto de segurança confirma que há algo a temer.

Não funciona fingir que o medo não existe. Ele opera mesmo — e especialmente — quando não é reconhecido.

Não funciona se culpar por sentir medo. É condição estrutural, não falha pessoal.

O Que Resta Possível

O que resta é lucidez.

Reconhecer o medo líquido pelo que ele é: não paranoia individual, mas condição compartilhada. Não reação a ameaça específica, mas estado produzido por estruturas sociais específicas.

Essa lucidez não elimina o medo. Mas muda a relação com ele.

Você deixa de ser vítima passiva de ansiedade incompreensível. Passa a ser alguém que reconhece uma condição, entende suas fontes, conhece seus mecanismos de amplificação, e pode — dentro de limites — fazer escolhas conscientes sobre como navegar essa condição.

A Pergunta Final

Bauman nos deixa não com solução, mas com clareza:

A pergunta não é: “como elimino meu medo?”

A pergunta é: “como vivo com lucidez em um mundo que produz medo — sem ser paralisado por ele, sem ser manipulado através dele?”

A resposta é necessariamente pessoal, imperfeita, em construção.

Perguntas Frequentes

O Medo Líquido na Era da Hiperatenção

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Byung-Chul Han mostra que a sociedade disciplinar e repressora do século XX descrita por Michel Foucault perde espaço para uma nova forma de organização coercitiva: a violência neuronal. As pessoas se cobram cada vez mais para apresentar resultados - tornando elas mesmas vigilantes e carrascas de suas ações. Em uma época onde poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade opera uma inversão perversa: nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos. Essa onda do 'eu consigo' e do 'yes, we can' tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout. Este livro transcende o campo filosófico e pode ajudar educadores, psicólogos e gestores a entender os novos problemas do século XXI

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Quantas vezes você se sentiu perdido em um site? Quantas outras falhou ao tentar entender como funcionava um aplicativo? Na maioria das vezes, a culpa não é sua. Muitos são os sites ou aplicativos com falhas de desenvolvimento que dificultam sua compreensão e uso. Profissionais de usabilidade estão aí para assegurar que isso não aconteça, indo na raiz do problema, identificando através de testes os pontos em que os usuários 'travam' e propondo soluções. Steve Krug trabalha como consultor de usabilidade desde os tempos da conexão discada. Sua experiência no comando da Advanced Common Sense o levou a escrever um livro. Não Me Faça Pensar foi lançado em 2002 e até hoje é mencionado quando o assunto são publicações de informática que fizeram história. O passar dos anos e o desenvolvimento de novas tecnologias levaria Krug a atualizar a obra. A segunda edição de Não Me Faça Pensar veria a luz do dia em 2008.

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Nota Editorial

Este ensaio integra o projeto Ars Multiverse. Os autores utilizam nomes editoriais e representam vozes ensaísticas do projeto.

O texto pode ser compartilhado ou republicado para fins educacionais ou editoriais, desde que seja atribuída a autoria editorial indicada e mencionada a fonte original: Ars Multiverse.

Para comentários ou solicitações, entre em contato com a curadoria editorial.

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About Dr. Caio Moretti

Dr. Caio Moretti é analista de temas sociais e culturais, com foco em comportamento coletivo, transformações da vida moderna e relações humanas.

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