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Existe um cristianismo que a maioria dos cristãos nunca conheceu.

Não é uma seita. Não é heresia. Não é invenção moderna. É uma tradição que remonta aos primeiros séculos — aos eremitas do deserto egípcio, aos padres gregos que falavam de theosis (divinização), aos contemplativos medievais que escreveram sobre a “noite escura da alma” e o “nascimento de Deus no fundo da alma”.

É o cristianismo místico: a vertente contemplativa que sempre existiu dentro da tradição, às vezes celebrada, frequentemente marginalizada, nunca extinta.

Meister Eckhart, frade dominicano do século XIV, foi julgado por heresia por ensinar que a alma humana possui um “fundo” (Grund) onde ela e Deus são indistinguíveis. Teresa d’Ávila descreveu a jornada interior como travessia de um castelo com sete moradas, culminando no “casamento espiritual”. João da Cruz mapeou a “noite escura” — a purgação dolorosa que precede a união. Thomas Merton, monge trapista do século XX, encontrou paralelos surpreendentes entre a contemplação cristã e o Zen.

Esses não eram marginais. Eram alguns dos espíritos mais profundos que o cristianismo produziu. E seus escritos revelam algo que a catequese comum raramente ensina: o cristianismo sempre teve uma tradição de experiência direta de Deus — não apenas crença sobre Deus, mas encontro vivo com o Mistério.

Este ensaio é um mapa dessa tradição. Não para converter ninguém, mas para revelar um território que permanece escondido — mesmo para muitos que se consideram cristãos.

Tabela de conteúdos

O Cristianismo Que a Igreja Quase Esqueceu

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O Que É Mística — E O Que Ela Não É

Mística é palavra perigosa. Evoca incenso, êxtases, visões de santos levitando. Mas o termo tem significado técnico preciso.

Na tradição cristã, mística (mystike) refere-se originalmente aos mistérios — os sacramentos e seu significado oculto. Gradualmente, passou a designar a experiência direta de Deus, em contraste com conhecimento sobre Deus.

A distinção é crucial:

TeologiaMística
Fala sobre DeusEncontra Deus
Opera por conceitosOpera por experiência
Pode ser ensinada por livrosExige prática e transformação
É conhecimentoÉ relacionamento

O místico não é quem sabe mais sobre Deus. É quem conhece Deus — no sentido bíblico de “conhecer”, que implica intimidade, não informação.

O que a mística cristã não é:

A Tensão Entre Instituição e Experiência

A história da mística cristã é também história de tensão.

A Igreja institucional precisa de doutrinas claras, hierarquia, sacramentos administrados por autoridades. O místico tem acesso direto a Deus — o que faz da mediação institucional menos necessária.

Isso cria desconforto. O místico não nega a Igreja, mas relativiza sua centralidade. Para quem encontra Deus no fundo da alma, o papa é menos absoluto.

Por isso, muitos místicos tiveram problemas:

A tensão não é acidental. É estrutural. Instituição e experiência operam em lógicas diferentes — e a história mostra repetidos ciclos de florescimento místico seguido de suspeita institucional.

Por Que a Mística Foi Marginalizada

Vários fatores contribuíram para a marginalização da mística no cristianismo moderno:

A Reforma Protestante rejeitou muito do vocabulário místico por associá-lo ao “catolicismo corrupto”. Lutero começou como admirador de místicos alemães, mas o protestantismo posterior enfatizou a Palavra sobre a experiência.

A Contrarreforma Católica tornou a Igreja defensiva. O Concílio de Trento (1545-1563) enfatizou sacramentos, hierarquia, doutrina — não contemplação. O Quietismo de Molinos foi condenado, e com ele toda uma linguagem de passividade diante de Deus.

O Iluminismo valorizou razão sobre experiência. Religião aceitável era racional, moral, social — não extática, contemplativa, unitiva.

A modernidade secular reduziu religião a ética ou consolo psicológico. A ideia de união com Deus parecia primitiva, embaraçosa.

Resultado: por séculos, a mística ficou confinada a mosteiros e textos especializados. O cristão comum jamais ouvia falar de Eckhart ou João da Cruz. A dimensão contemplativa da fé foi amputada.

O século XX trouxe redescoberta. Thomas Merton popularizou a contemplação. O Vaticano II abriu portas. O diálogo inter-religioso revelou paralelos com o Oriente. Movimentos como Centering Prayer democratizaram práticas antes restritas a monges.

A mística cristã está em renascimento. Este ensaio é parte desse movimento.

Os Padres do Deserto: Onde Tudo Começou

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A Fuga Para o Silêncio (Séculos III-V)

A mística cristã tem seu berço em um lugar improvável: os desertos do Egito.

No século III, quando o cristianismo se tornou legal e depois religião oficial do Império Romano, alguns cristãos ficaram alarmados. A Igreja estava se tornando confortável. Bispos ganhavam poder político. Ser cristão deixou de custar algo.

Em resposta, homens e mulheres fugiram para o deserto — literalmente. Buscavam o cristianismo radical dos mártires, mas sem perseguição. A forma que encontraram foi renúncia total: solidão, silêncio, pobreza, oração incessante.

Santo Antônio do Egito (251-356) é considerado o pai do monasticismo cristão. Sua vida, escrita por Atanásio, tornou-se best-seller da antiguidade — inspirando gerações a abandonar cidades e buscar Deus no deserto.

Não estavam fugindo de algo tanto quanto correndo para algo. O deserto era o lugar onde, sem distrações, a alma poderia encontrar seu Criador diretamente.

Práticas e Ensinamentos dos Eremitas

Os Padres do Deserto desenvolveram tecnologias espirituais que perduram até hoje:

A repetição de fórmulas breves — orações curtas repetidas continuamente para aquietar a mente. “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador” é a mais famosa.

A luta contra os “logismoi” — pensamentos que perturbam. Evágrio Pôntico (345-399) catalogou oito pensamentos principais (gula, luxúria, avareza, tristeza, ira, acídia, vanglória, orgulho) — que depois se tornaram os “sete pecados capitais”.

A direção espiritual — relação entre um abba (pai) ou amma (mãe) experiente e um discípulo. Os “Apotegmas dos Padres do Deserto” coletam ditos de sabedoria dessa relação.

A vigília — oração noturna, jejum, privação de sono como meios de quebrar a identificação com o corpo e suas demandas.

Os ensinamentos são paradoxalmente simples e profundos:

A “cela” é o espaço de confronto consigo mesmo. Não há para onde fugir. Nessa confrontação radical, surge a possibilidade de encontrar Deus.

A Oração do Coração e o Hesicasmo

Na tradição oriental (ortodoxa), os ensinamentos do deserto floresceram no hesicasmo (hesychia = quietude, silêncio).

A prática central é a Oração de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim” — repetida continuamente, coordenada com a respiração, até se tornar automática, “descendo da mente para o coração”.

O objetivo é a theosis (divinização): não se tornar Deus no sentido de identidade, mas participar na natureza divina, ser penetrado pela luz incriada.

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Tesouro Escondido

A PROFUNDIDADE

QUE A CATEQUESE NÃO ENSINOU

Por que a maioria dos cristãos nunca ouviu falar de Meister Eckhart, da Nuvem do Não-Saber ou da Oração de Jesus? A mística sempre existiu no cristianismo, mas ficou confinada a mosteiros e textos especializados. Era considerada “avançada demais” para leigos. O resultado: gerações cresceram pensando que cristianismo era apenas crença e moral — sem jamais conhecer a tradição contemplativa que é seu coração oculto.

A Mística Medieval: A Era de Ouro

Meister Eckhart: O Fundo da Alma e o Nascimento de Deus

Johannes Eckhart (c. 1260-1328), conhecido como Meister Eckhart, é possivelmente o mais radical e influente dos místicos cristãos.

Frade dominicano, professor em Paris e Colônia, Eckhart pregava em vernáculo (alemão) para leigos — não apenas em latim para acadêmicos. Suas ideias atravessavam as paredes do mosteiro.

Seus conceitos centrais:

O Nascimento do Filho na Alma: O mesmo nascimento eterno pelo qual o Pai gera o Filho (na Trindade) acontece na alma do contemplativo. Não é metáfora — é participação real no mistério trinitário.

Essa frase chocante significa: libertar-se de imagens de Deus para encontrar Deus além de imagens.

Eckhart foi julgado pela Inquisição. Morreu antes da sentença final, mas 28 de suas proposições foram condenadas como heréticas ou “perigosas”. Seu legado, entretanto, sobreviveu — influenciando Lutero, o idealismo alemão, Heidegger, e mestres contemporâneos.

A Nuvem do Não-Saber: Teologia Apofática

Contemporâneo de Eckhart, um autor anônimo inglês escreveu uma das obras-primas da mística cristã: A Nuvem do Não-Saber (The Cloud of Unknowing, c. 1370).

A prática proposta: colocar uma “nuvem de esquecimento” sobre todas as criaturas e uma “nuvem de não-saber” entre você e Deus. No escuro, sem conceitos, o amor puro pode fazer contato.

A técnica é simples: escolha uma palavra breve (Deus, Amor, Jesus) e use-a como âncora. Quando pensamentos surgirem, retorne à palavra. Não analise, não elabore — apenas dirija o amor nu para o Deus nu.

Essa prática é ancestral de métodos modernos como a Oração Centrante — mostrando continuidade de dois mil anos.

Juliana de Norwich: “Tudo Ficará Bem”

Sua mensagem central é de otimismo radical:

Não é otimismo ingênuo. Juliana conhecia o mal, o sofrimento, a peste negra que devastou sua época. Mas sua visão revelou que, de alguma forma incompreensível para a mente humana, Deus fará tudo convergir para o bem.

Juliana representa a corrente afetiva da mística medieval — menos intelectual que Eckhart, mais imagética, mais centrada no amor.

Os Místicos Renanos e a Gelassenheit

Eckhart não estava sozinho. Formou-se uma escola de místicos renanos no vale do Reno (Alemanha):

Johannes Tauler (c. 1300-1361) — discípulo de Eckhart, mais pastoral, menos especulativo. Influenciou profundamente Lutero.

Heinrich Suso (c. 1296-1366) — outro discípulo, mais devocional e afetivo. Sua autobiografia descreve práticas ascéticas extremas que hoje parecem perturbadoras.

O tema comum é Gelassenheit — palavra alemã intraduzível que significa algo como “soltar”, “deixar ser”, “desprendimento ativo”. É o movimento interior de renunciar ao controle, permitir que Deus aja.

Os Grandes Carmelitas: Teresa e João da Cruz

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Santa Teresa d’Ávila: O Castelo Interior

Teresa de Cepeda y Ahumada (1515-1582), conhecida como Santa Teresa d’Ávila ou Teresa de Jesus, é uma das maiores figuras da mística cristã — e uma das mulheres mais notáveis da história europeia.

Sua obra-prima é O Castelo Interior (1577), escrito em semanas, quase em transe.

MoradaExperiênciaCaracterística
1ª-3ªPurificação ativaEsforço humano, combate ao pecado, práticas
TransiçãoPrimeiras consolações passivas
União de vontades“Morte do bicho-da-seda”, rendição profunda
Noivado espiritualÊxtases, visões, provas intensas
Casamento espiritualUnião permanente, paz inabalável

A progressão não é linear nem garantida. Muitos permanecem nas moradas externas. Mas o castelo está lá — e a porta está aberta.

São João da Cruz: A Noite Escura da Alma

Juan de Yepes (1542-1591), conhecido como São João da Cruz, foi colaborador e diretor espiritual de Teresa. Poeta excepcional e teólogo sutil, ele mapeou o território mais difícil da jornada mística: a noite escura.

Sua obra central, A Noite Escura (tanto o poema quanto os comentários), descreve duas “noites”:

A noite dos sentidos: Purgação dos apegos sensoriais. O que antes dava prazer (incluindo práticas espirituais) se torna árido. Deus retira as “consolações” para que a alma busque Deus por ele mesmo, não por seus presentes.

A noite do espírito: Mais profunda e dolorosa. A própria identidade espiritual é desmontada. Tudo que a pessoa pensava saber sobre Deus revela-se inadequado. É “morte” antes da ressurreição.

A poesia de João está entre a mais alta da língua espanhola. “Cântico Espiritual” e “Chama Viva de Amor” expressam êxtase místico em imagens de amor humano — continuando a tradição do Cântico dos Cânticos.

As Moradas da Alma: Mapa da Jornada Interior

Teresa e João oferecem mapas complementares da jornada interior:

Teresa (Castelo Interior)João da Cruz (Subida/Noite)
Sete moradas, progressão espacialDuas noites, progressão temporal
Ênfase em experiências positivasÊnfase em purgação
Linguagem mais acessívelLinguagem mais técnica
Tom afetivo, imagéticoTom apofático, abstrato

Noite Fecunda

A ESCURIDÃO

QUE ILUMINA

“Em uma noite escura, com ânsias de amor inflamada” — assim começa o poema mais famoso de João da Cruz. A noite não é punição nem abandono. É o casulo onde a lagarta se dissolve para se tornar borboleta. A escuridão é Deus tão próximo que cega; silêncio tão profundo que ensurdece. Atravessar a noite é morrer para renascer. Não há atalho.

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A Mística Moderna: Renovação Contemplativa

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Thomas Merton: O Monge Que Dialogou com o Oriente

Thomas Merton (1915-1968) é provavelmente o místico cristão mais influente do século XX.

Nascido na França, órfão jovem, vida boêmia em Cambridge e Columbia, conversão repentina ao catolicismo em 1938, entrada na ordem trapista em 1941. Seu livro A Montanha dos Sete Patamares (1948) — autobiografia até a entrada no mosteiro — tornou-se fenômeno editorial, vendendo milhões.

Mas Merton não parou ali. Ao longo de vinte e sete anos como monge no mosteiro de Gethsemani (Kentucky), ele evoluiu radicalmente:

Fase inicial: Fuga do mundo, ascetismo tradicional, romantização da vida monástica.

Fase média: Descoberta de que o mosteiro não elimina conflitos internos; aprofundamento em questões sociais (direitos civis, guerra do Vietnã); início do diálogo inter-religioso.

Fase final: Estudo profundo de Zen, Taoísmo, Sufismo; encontros com mestres orientais (D.T. Suzuki, Thich Nhat Hanh); busca de uma “contemplação que transcenda divisões”.

Merton morreu em Bangkok, durante conferência sobre monasticismo cristão e budista, eletrocutado por um ventilador defeituoso. Tinha 53 anos.

Teilhard de Chardin: O Cristo Cósmico e a Evolução

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) foi jesuíta, paleontólogo e místico — combinação improvável que produziu visão singular.

Teilhard participou da descoberta do Homem de Pequim. Conhecia a evolução não como teoria abstrata, mas como realidade que escavara com as próprias mãos. E integrou isso com sua fé cristã de forma radical:

A evolução é processo divino. Não acidente nem mecanismo cego, mas movimento direcionado para complexidade crescente e consciência mais alta.

O Ponto Ômega: A evolução converge para um ponto final onde matéria e espírito, humanidade e cosmos, atingem unidade em Cristo. Cristo não é apenas redentor de pecados, mas o Ponto Ômega — o atrator final de todo o processo cósmico.

Cristo Cósmico: Cristo não é figura apenas histórica (Jesus de Nazaré), mas princípio cósmico presente desde o Big Bang, atraindo toda a criação para sua consumação.

A Igreja proibiu Teilhard de publicar em vida. Seus livros circularam apenas postumamente. Hoje, é cada vez mais influente — especialmente entre quem busca integrar espiritualidade e visão científica.

O Movimento Contemplativo Atual: Keating, Rohr, Bourgeault

A mística cristã não é peça de museu. Um movimento vigoroso a renova desde os anos 1970:

Thomas Keating (1923-2018), monge trapista, desenvolveu a Oração Centrante (Centering Prayer) — adaptação da Nuvem do Não-Saber para praticantes modernos. Fundou a Contemplative Outreach, que ensina a prática globalmente.

Richard Rohr (1943-), franciscano, populariza a mística cristã através de livros, podcasts e do Center for Action and Contemplation em Albuquerque. Seu trabalho conecta contemplação com justiça social, psicologia e diálogo inter-religioso.

Cynthia Bourgeault (1945-), sacerdotisa episcopal, ensina “cristianismo sabedoria” — recuperando a dimensão contemplativa como centro da fé, não periferia.

Esses e outros formam um movimento de renovação. Retiros de silêncio, grupos de oração centrante, cenáculos de lectio divina proliferam. O que estava confinado a mosteiros está se democratizando.

A mística cristã está viva — e mais acessível do que em séculos.

Práticas da Mística Cristã

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Lectio Divina: Leitura Orante

Lectio Divina (leitura divina) é método antigo de oração com textos sagrados, sistematizado por Guigo II no século XII.

Os quatro degraus:

DegrauLatinoAçãoDescrição
1LectioLerLer o texto lentamente, atentamente, deixando palavras ressoarem
2MeditatioRefletirRuminar o texto, deixá-lo trabalhar internamente
3OratioOrarResponder ao texto em oração espontânea
4ContemplatioContemplarSilenciar, repousar em Deus além de palavras

A prática não é estudo exegético. Não se busca informação, mas transformação. O texto é porta, não destino.

Guigo usava a imagem de comer: lectio coloca o alimento na boca; meditatio mastiga; oratio extrai o sabor; contemplatio é a nutrição que se espalha pelo corpo.

Oração Centrante (Centering Prayer)

Desenvolvida por Thomas Keating e outros monges trapistas nos anos 1970, a Oração Centrante é método contemplativo para leigos.

O procedimento:

Esclarecimentos importantes:

A oração centrante é a prática contemplativa cristã mais acessível atualmente, com grupos em todo o mundo.

A Oração de Jesus: Tradição Oriental

Na tradição ortodoxa, a Oração de Jesus (ou Oração do Coração) é o método contemplativo central:

A prática:

O texto clássico é Relatos de um Peregrino Russo (séc. XIX), que narra a jornada de um camponês em busca de oração incessante.

A meta é que a oração se torne tão natural quanto respirar — continuando mesmo durante atividades e sono.

Examen Inaciano: Consciência do Dia

Inácio de Loyola (1491-1556), fundador dos jesuítas, desenvolveu o Examen — prática de revisão diária que ele considerava mais importante que a meditação formal.

Os cinco passos (10-15 minutos, geralmente ao final do dia):

Mística Cristã e Outras Tradições

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Eckhart e o Zen: Paralelos Surpreendentes

Quando estudiosos compararam Meister Eckhart e mestres Zen, os paralelos chocaram:

EckhartZen
Gelassenheit (soltar)Não-apego
O “nada” divinoSunyata (vacuidade)
Nascimento no fundo da almaVer a natureza búdica
Romper conceitos de DeusMatar o Buda
“O olho com que vejo Deus…”“Antes de Abraão, eu sou”

D.T. Suzuki, que introduziu o Zen no Ocidente, escreveu um livro inteiro sobre Eckhart (Mysticismo: Cristão e Budista). Thomas Merton dedicou anos a esse diálogo.

Os paralelos não significam identidade. Os contextos são diferentes — Eckhart permanece trinitário, cristológico. Mas a estrutura da experiência parece convergir: esvaziamento, transcendência de dualidades, despertar para realidade não-conceitual.

Teresa e os Sufis: O Castelo e as Moradas

Estudiosos notaram semelhanças entre O Castelo Interior de Teresa e textos sufis — especialmente a imagem de “moradas” progressivas.

A Espanha de Teresa era terra de três religiões. Conversos judeus e mouriscos faziam parte do tecido social. É possível (embora debatido) que Teresa conhecesse tradições contemplativas islâmicas, diretamente ou por osmose cultural.

O sufi Al-Ghazali (m. 1111) descreveu estágios espirituais em linguagem de “moradas” (maqamat). A tradição da via purgativa, illuminativa, unitiva é comum a ambas as tradições.

Novamente: paralelos não significam dependência direta. Podem indicar estrutura universal da jornada contemplativa — que diferentes tradições mapeiam independentemente.

O Diálogo Inter-Religioso Contemplativo

O século XX inaugurou algo novo: diálogo contemplativo entre tradições.

Monges cristãos visitaram mosteiros zen e hindus. Mestres orientais visitaram abadias trapistas. Merton encontrou o Dalai Lama. Keating dialogou com professores de meditação budista. Bede Griffiths viveu em ashram na Índia, integrando práticas hindus com fé cristã.

O movimento Contemplative Outreach e o Center for Action and Contemplation de Richard Rohr promovem esse diálogo ativamente.

A premissa não é sincretismo (fundir tudo em sopa indistinta), mas reconhecimento de que a experiência contemplativa tem estrutura comum — mesmo quando as teologias que a interpretam diferem.

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União, não Fusão

O ENCONTRO

QUE NÃO DISSOLVE

A mística cristã fala de “união com Deus” — mas não de dissolução. A gota entra no oceano, mas não deixa de ser gota. A alma permanece criatura; Deus permanece Criador. A distinção é mantida no abraço mais íntimo. É como casamento: dois se tornam um, mas não deixam de ser dois. O paradoxo é constitutivo. Toda linguagem falha aqui — mas o silêncio sabe.

Perguntas Frequentes

Mística Cristã: De Meister Eckhart a Teilhard de Chardin — O Cristo Cósmico

📚 Leitura Recomendada

Capa Nuvem do não-saber

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Autor: Anônimo do séc. XIV (Autor), Lino Correia Marques de Miranda Moreira (Tradutor)

🏢 Ed: Editora Vozes 📅 Ano: 2013 🔢 ASIN: 8532634699

Este livro é, sem dúvida, uma ferramenta importante para promover um diálogo inter-religioso, já que hoje em dia é comum a procura por alternativas para se conviver com as situações que a vida impõe. O texto do século XIV se coloca extremamente atual e afinado com o pensamento de nomes como São João da Cruz. Vale a pena conferir e se deixar envolver pelos conceitos e conselhos do texto.

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Capa Castelo Interior ou Moradas

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🏢 Ed: Paulus Editora 📅 Ano: 1981 🔢 ASIN: 8534903336

Um castelo dividido em várias moradas foi a comparação que Santa Teresa utilizou no século XVI para descrever os sucessivos estágios que a alma percorre no seu caminho em direção a Deus. Este livro transmite a doutrina espiritual da reformuladora do Carmelo e, ao mesmo tempo, reflete sua experiência pessoal. As sete moradas da vida interior em que se divide a obra representam as etapas da santidade que o homem tem de alcançar até chegar à perfeição.

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Autor: Pierre T. de Chardin (Autor)

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Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), jesuíta francês, é, sem dúvida, um dos grandes gênios do século XX. Geólogo e paleontólogo, pensador e autor de centenas de escritos sobre a condição humana, ele foi também um místico contemporâneo, o sacerdote do Progresso Histórico e o apóstolo do Cris­tianismo Cósmico. . . Sua vida e sua obra anunciam uma nova visão da realidade, a Visão Hiperfísica, pela qual tudo - das partículas atômicas às galáxias, passando pelas plantas, pelos animais e pelo homem - é um só todo dinâmico, um processo que se vai orientando e evoluindo ao longo do Espaço-Tempo e que culminará na pura espiritualidade do Ponto Ômega. O Fenômeno Humano, 'Obra Mestra' do Autor, revela, explicita e exercita essa visão, exibindo ao leitor uma espécie de filme, a 'História do Universo', desde o Nada do passado até o Todo do futuro. Nesse grandioso espetáculo, o Homem, com seu poder de reflexão, eclode como figura-chave da epopeia universal. Representante oficial da 'Fundação Teilhard de Chardin' no Brasil, o Prof. José Luiz Archanjo, Ph. D. - o mesmo especialista sob cujos cuidados a Editora Cultrix publicou Mundo, Homem e Deus, O Meio Divino e Pierre Teilhard de Chardin, Pensador Uni­versal -, cuidou de traduzir, anotar e organizar esta edição crítica, que resultou numa verdadeira 'Enciclopédia Teilhardiana', com todos os subsídios para que o leitor possa apreender e exercer a nova visão, que lhe revelará um novo Universo.

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Este ensaio integra o projeto Ars Multiverse. Os autores utilizam nomes editoriais e representam vozes ensaísticas do projeto.

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About Isaac Monteiro

Isaac Monteiro é ensaísta dedicado ao estudo do sagrado, do símbolo e das tradições espirituais como fenômenos culturais e históricos.

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