Modernidade Líquida e Algoritmos: A Nova Fragilidade dos Vínculos
Quando foi a última vez que você conversou com aquele amigo de faculdade?
Não no sentido de “curtir um post” ou “reagir a um story”. No sentido de conversar de verdade — saber o que está acontecendo na vida dele, além do que o algoritmo decide mostrar.
Se você parar para pensar, provavelmente vai perceber algo perturbador: muitos relacionamentos que você considera “ativos” existem apenas como fantasmas no feed. Você vê fragmentos curados da vida dessas pessoas. Elas veem fragmentos curados da sua. Vocês se “acompanham” — mas não se conhecem mais.
E às vezes, sem aviso, alguém simplesmente desaparece. Não porque brigaram. Não porque se afastaram conscientemente. Mas porque um sistema invisível decidiu que vocês não eram mais “relevantes” um para o outro.
Na modernidade líquida descrita por Zygmunt Bauman, vínculos já eram frágeis, reversíveis e constantemente reavaliados. O que os algoritmos fizeram foi acelerar essa fragilidade, torná-la invisível e transferir o controle das relações humanas para sistemas que ninguém realmente entende.
Este ensaio investiga como a mediação algorítmica se tornou o novo acelerador da liquidez — e o que isso significa para a possibilidade de vínculos genuínos em um mundo onde máquinas decidem quem você vê, quem te vê, e quem desaparece sem rastro.
O Que São Algoritmos e Por Que Eles Importam Para Suas Relações

Algoritmos: Uma Explicação Necessária
Antes de avançar, é importante entender o que são algoritmos — especialmente para quem não tem background técnico.
Algoritmo é, na definição mais simples, um conjunto de regras que um sistema segue para tomar decisões. Quando você abre o Instagram, um algoritmo decide quais posts aparecem primeiro. Quando você busca algo no Google, um algoritmo decide quais resultados são mais “relevantes”. Quando o TikTok te mostra um vídeo, um algoritmo calculou que aquele conteúdo tem alta probabilidade de te manter assistindo.
Esses algoritmos não são neutros. Eles são projetados com objetivos específicos — geralmente, maximizar o tempo que você passa na plataforma, porque mais tempo significa mais anúncios vistos, mais dados coletados, mais receita gerada.
O ponto crucial é este: algoritmos não mostram a realidade — eles constroem uma versão da realidade otimizada para os interesses da plataforma.
A Curadoria Invisível
Nos primórdios das redes sociais, feeds eram cronológicos. Você via tudo que seus amigos postavam, na ordem em que postavam. Simples, transparente, previsível.
Isso mudou radicalmente. Hoje, plataformas usam algoritmos para curar o que você vê. E essa curadoria segue critérios que você não controla e frequentemente não conhece:
- Engajamento passado: Se você interagiu muito com alguém, verá mais dessa pessoa. Se parou de interagir, ela gradualmente desaparece.
- Probabilidade de interação: O algoritmo prevê se você vai curtir, comentar ou compartilhar. Conteúdo com baixa probabilidade é deprioritizado.
- “Valor” para a plataforma: Conteúdo que gera mais engajamento geral (polêmico, emocional, visual) é favorecido sobre conteúdo “comum”.
- Competição: Seu post compete com milhares de outros no mesmo momento. Mesmo que seja relevante, pode perder para algo mais “engajante”.
O resultado: você não vê seus amigos — você vê uma seleção algorítmica de fragmentos otimizados.
O Modelo de Negócio Por Trás
Por que plataformas fazem isso? A resposta é econômica.
Redes sociais são empresas. Empresas precisam de receita. A receita vem de anúncios. Anúncios funcionam quando você está na plataforma, olhando para a tela, engajando com conteúdo.
A professora de Harvard Shoshana Zuboff cunhou o termo “capitalismo de vigilância” para descrever esse modelo:
“O capitalismo de vigilância reivindica unilateralmente a experiência humana como matéria-prima gratuita para tradução em dados comportamentais. Esses dados são processados e empacotados como produtos de previsão e vendidos em mercados de futuros comportamentais.”
— Shoshana Zuboff, A Era do Capitalismo de Vigilância
Traduzindo: sua atenção é o produto. Seus relacionamentos são matéria-prima. O algoritmo é a máquina de extração.
Visibilidade Como Capital Social
Ser Visto Como Condição de Existir
Em ambientes digitais, visibilidade se tornou recurso escasso.
Não basta existir — é preciso aparecer. E aparecer não é mais escolha sua; é decisão algorítmica.
Se o algoritmo decide que você é “relevante”, seus posts aparecem, suas mensagens chegam, sua existência é confirmada. Se o algoritmo decide que você não é “engajante o suficiente”, você gradualmente desaparece — não apenas dos feeds, mas da consciência das pessoas.
O filósofo Byung-Chul Han, em “Sociedade da Transparência”, observa:
“Hoje, quem não se expõe não existe. A pressão por exposição explora o visível, sem respeito pelo invisível. Tudo é iluminado, tudo é descoberto, tudo é desnudado.”
— Byung-Chul Han
A visibilidade deixou de ser opção e se tornou condição de existência social. No ambiente digital, ser invisível equivale, funcionalmente, a não existir.
O Novo Capital Social
Sociólogos tradicionalmente falam de “capital social” — os recursos que você tem através de suas conexões e relacionamentos. Na era algorítmica, esse conceito ganha nova dimensão.
Seu capital social agora depende de:
| Fator | Descrição | Impacto |
|---|---|---|
| Seguidores | Quantidade de pessoas que escolheram te “acompanhar” | Determina alcance potencial |
| Engajamento | Likes, comentários, compartilhamentos que você recebe | Determina alcance real |
| Frequência | Regularidade com que você posta | Determina se o algoritmo te “lembra” |
| “Qualidade” | Avaliação algorítmica do seu conteúdo | Determina prioridade no feed |
O problema: esses fatores são externos, instáveis e fora do seu controle. Seu capital social pode evaporar de um dia para outro se o algoritmo mudar ou se você parar de “performar”.
Métricas Como Espelho Deformante
Quando a visibilidade se torna capital, métricas se tornam espelho.
Você checa quantos likes seu post recebeu. Quantas pessoas viram seu story. Quem visualizou mas não reagiu. Quem reagiu mas não comentou. Cada número é interpretado como sinal social — aceitação, rejeição, relevância, irrelevância.
Pesquisa da Royal Society for Public Health (Reino Unido, 2017) classificou Instagram como a rede social mais prejudicial para saúde mental de jovens, especialmente por:
- Comparação social constante
- FOMO (Fear of Missing Out)
- Ansiedade sobre imagem e aprovação
- Correlação com sintomas depressivos
O espelho das métricas não reflete quem você é — reflete como o algoritmo te classifica. E essa classificação muda constantemente, gerando insegurança crônica.

Existência Condicional
VOCÊ SÓ EXISTE
SE O ALGORITMO PERMITIR
Na era digital, visibilidade não é escolha — é condição de existência. Se o algoritmo te mostra, você existe. Se não mostra, você desaparece. Seus relacionamentos, sua relevância, sua própria presença social dependem de sistemas que você não controla e mal compreende. Invisibilidade digital é a nova forma de inexistência.
A Aceleração da Descartabilidade
A Lógica Algorítmica e Seus Valores
Algoritmos de redes sociais operam sob uma lógica específica que privilegia certos valores sobre outros:
| Valor Algorítmico | Significado | Consequência Relacional |
|---|---|---|
| Novidade | Conteúdo recente é priorizado | O passado desaparece rapidamente |
| Frequência | Quem posta mais aparece mais | Silêncio = irrelevância |
| Engajamento | Reações rápidas são premiadas | Reflexão é penalizada |
| Viralidade | Conteúdo compartilhável sobe | Intimidade não escala |
| Retenção | O que mantém você na tela vence | Profundidade perde para entretenimento |
Essa lógica não é neutra. Ela molda comportamentos e expectativas. Se o sistema premia novidade e frequência, você aprende a esperar novidade e frequência. Relacionamentos que não entregam isso parecem “mortos”.
O Ciclo do Desaparecimento
O algoritmo cria um ciclo que acelera a descartabilidade dos vínculos:
Você para de interagir com alguém
↓
O algoritmo nota a redução de engajamento
↓
O algoritmo reduz a visibilidade dessa pessoa para você
↓
Você vê menos posts dessa pessoa
↓
Você tem menos oportunidades de interagir
↓
O algoritmo reduz ainda mais a visibilidade
↓
A pessoa gradualmente “desaparece” do seu feed
↓
Você esquece que ela existe
↓
O relacionamento se dissolve — sem briga, sem decisão, sem consciência
Esse ciclo é silencioso e automático. Você não decide terminar o relacionamento. O algoritmo decide por você, baseado em métricas de engajamento.
Bauman e a Aceleração
Bauman, escrevendo antes da era dos algoritmos, já identificava a lógica da descartabilidade na modernidade líquida:
“Na modernidade líquida, os laços humanos são como os de uma multidão que se aglomera para um evento e se dispersa quando ele termina. São laços fáceis de fazer e fáceis de desfazer.”
— Zygmunt Bauman, Amor Líquido
“Na modernidade líquida, os laços humanos são como os de uma multidão que se aglomera para um evento e se dispersa quando ele termina. São laços fáceis de fazer e fáceis de desfazer.”
— Zygmunt Bauman, Amor Líquido
A Ansiedade Relacional Algorítmica
Uma Nova Fonte de Ansiedade
A mediação algorítmica introduziu uma fonte de ansiedade que gerações anteriores não conheciam: incerteza sobre as causas do silêncio digital.
Quando alguém não responde sua mensagem, o que significa?
- Está ocupado?
- Está bravo?
- Não viu? (O algoritmo não mostrou?)
- Viu e ignorou?
- O app não entregou?
Quando alguém para de aparecer no seu feed, o que aconteceu?
- Se afastou de você?
- O algoritmo decidiu?
- Parou de postar?
- Te bloqueou?
A impossibilidade de distinguir rejeição humana de mediação algorítmica gera ansiedade específica. Você não sabe se o problema é o relacionamento ou o sistema.
O “Visto” Como Tortura Moderna
Recursos como “visto” (confirmação de que a mensagem foi lida) exemplificam a ansiedade algorítmica.
Antes do “visto”, se alguém não respondia, você podia assumir que não viu. Agora você sabe que viu — e não respondeu. Cada “visto” sem resposta é micro-rejeição confirmada.
Pesquisa da Universidade de Birmingham (2023) encontrou que:
- 67% dos jovens relatam ansiedade relacionada a “mensagens vistas e não respondidas”
- 43% checam obsessivamente se mensagens foram lidas
- 38% interpretam demora na resposta como sinal negativo sobre o relacionamento
O sistema que prometia facilitar comunicação criou novas formas de sofrimento comunicacional.
A Comparação Constante
Algoritmos não apenas filtram — eles posicionam. Seu post aparece acima ou abaixo de outros. Seu perfil tem mais ou menos seguidores que comparáveis. Seu engajamento é maior ou menor que a média.
Essa arquitetura de ranqueamento convida à comparação constante:
- Por que o post dela teve mais likes que o meu?
- Por que ele tem mais seguidores fazendo a mesma coisa?
- Por que meu conteúdo não “performa” como deveria?
A comparação não é apenas com amigos — é com todo o universo visível. E o universo visível é enviesado: o algoritmo mostra desproporcionalmente conteúdo de alta performance, criando sensação de que todos estão melhor que você.
O FOMO Algorítmico
FOMO (Fear of Missing Out) — o medo de estar perdendo algo — é intensificado pela arquitetura algorítmica.
O feed é projetado para ser infinito. Sempre há mais para ver. Sempre há algo acontecendo que você não está participando. Sempre há conversas, eventos, conexões das quais você está excluído.
Pesquisa do Journal of Social and Clinical Psychology (2018) demonstrou correlação direta entre tempo em redes sociais e sentimentos de exclusão, inadequação e ansiedade. O paradoxo: a ferramenta de conexão produz sensação de desconexão.
Plataformas Diferentes, Fragilidades Diferentes

Instagram: A Economia do Visual
O Instagram opera sob lógica específica que molda relacionamentos de forma particular.
Características:
- Prioridade absoluta do visual
- Stories como termômetro de “quem está prestando atenção”
- Reels competindo com posts de amigos (conteúdo profissional vs. pessoal)
- DMs como espaço “privado” ainda algoritmicamente observado
Fragilidade específica: Relacionamentos se medem por quem vê seus stories. A lista de visualizações se torna checklist de relevância relacional. Quem não vê consistentemente é interpretado como “desinteressado” — mesmo que o algoritmo simplesmente não tenha mostrado.
TikTok: A Velocidade do Descarte
O TikTok elevou a velocidade algorítmica a outro patamar.
Características:
- Feed “For You” é quase 100% algorítmico (não baseado em quem você segue)
- Ciclos de atenção extremamente curtos (segundos)
- Viralização e esquecimento em velocidade recorde
- Criadores “surgem” e “desaparecem” em semanas
Fragilidade específica: A lógica do TikTok ensina que relevância é efêmera por design. Ser viral hoje não significa nada amanhã. Isso normaliza a descartabilidade extrema e a ansiedade sobre “manter relevância”.
LinkedIn: A Fragilidade Profissional
O LinkedIn aplica a lógica algorítmica ao mundo profissional, com consequências específicas.
Características:
- “Visibilidade” como proxy de relevância profissional
- Posts de conquistas criando pressão por performance pública
- Conexões como “networking” — relacionamentos instrumentalizados
- Algoritmo favorecendo conteúdo que gera reação (frequentemente polêmico)
Fragilidade específica: Identidade profissional se confunde com performance no LinkedIn. “Desaparecer” da plataforma é interpretado como estagnação de carreira. A ansiedade de ser “deixado para trás” profissionalmente se torna constante.
WhatsApp: A Intimidade Vigiada
Mesmo plataformas de mensagem “privada” como WhatsApp têm dinâmicas de fragilização.
Características:
- Grupos como micro-redes sociais com dinâmicas próprias
- “Online” e “visto por último” como vigilância de presença
- Status como mini-feed com sua própria economia de visualização
- Silenciamentos como forma de “descarte suave”
Fragilidade específica: A promessa de comunicação direta é minada por funcionalidades que transformam presença em performance. Estar “online” mas não responder é lido como afronta. Silenciar grupos é descarte passivo.
Mediação Total
NENHUM
RELACIONAMENTO ESCAPA DO ALGORITMO
Instagram mede quem vê seus stories. TikTok ensina que relevância dura segundos. LinkedIn transforma carreira em performance. WhatsApp vigia sua presença. Cada plataforma fragiliza de um jeito diferente, mas todas compartilham a mesma lógica: relacionamentos mediados, quantificados, condicionados por sistemas que você não controla.

Laços Frágeis, Porém Constantes

O Paradoxo da Hiperconectividade
Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados.
O número de “amigos” e “seguidores” que uma pessoa média tem hoje é incomparavelmente maior do que em qualquer época anterior. A capacidade de manter contato com pessoas geograficamente distantes é sem precedentes. A quantidade de interações diárias — curtidas, reações, mensagens — é massiva.
E, no entanto, pesquisas consistentemente mostram aumento de solidão nas mesmas populações que mais usam redes sociais.
Estudo da Cigna (2020) revelou que 61% dos americanos se consideram “solitários” — aumento significativo em relação a décadas anteriores. Entre jovens de 18-22 anos (nativos digitais), o número é ainda maior: 79%.
O paradoxo tem explicação: quantidade não é qualidade. Muitos contatos superficiais não substituem poucos vínculos profundos.
A Economia da Leveza
A modernidade algorítmica produz relacionamentos específicos:
- Muitos contatos — centenas ou milhares de “conexões”
- Pouca profundidade — interações superficiais (likes, reações rápidas)
- Presença contínua — sempre “conectado”, sempre “disponível”
- Compromisso reduzido — fácil entrada, fácil saída
Bauman descreveu isso como “conexões” em oposição a “relações”:
“Conexões são relações virtuais. Ao contrário dos relacionamentos à moda antiga, elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera que as possibilidades românticas surjam e desapareçam em velocidade crescente.”
— Zygmunt Bauman, Amor Líquido
A “leveza” é feature, não bug. Relacionamentos leves são fáceis de manter em quantidade. São fáceis de entrar. E são fáceis de abandonar — ou de deixar o algoritmo abandonar por você.
Comunidades Guarda-Roupa
Bauman usa a expressão “comunidades guarda-roupa” para descrever pertencimentos líquidos: grupos que você veste para uma ocasião e remove depois, como uma roupa.
Nas redes sociais, isso se manifesta em:
- Grupos que surgem em torno de eventos e se dissolvem depois
- Comunidades de interesse que você entra e sai sem cerimônia
- “Amizades” baseadas em hashtags ou algoritmos que te agruparam
- Pertencimentos que não sobrevivem à mudança de plataforma
Essas comunidades oferecem sensação de pertencimento sem exigir compromisso real. São satisfatórias no momento — e descartáveis no momento seguinte.
A Câmara de Eco e o “Inferno do Igual”

O Algoritmo Como Curador de Realidade
Algoritmos não apenas filtram pessoas — eles filtram realidades.
Se você interage mais com certo tipo de conteúdo, o algoritmo mostra mais daquilo. Isso cria câmaras de eco: bolhas onde você vê principalmente o que já concorda, o que já gosta, o que já pensa.
O resultado é fragmentação da realidade compartilhada. Pessoas usando a mesma plataforma podem ter experiências completamente diferentes dela. O “feed” de um é irreconhecível para outro.
O “Inferno do Igual”
Byung-Chul Han descreve o resultado como “inferno do igual”:
“O excesso de positividade se manifesta como excesso do igual, proliferação do idêntico. A sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo pobre em negatividade, que é dominado pelo excesso de positividade.”
— Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço
O algoritmo, ao mostrar mais do que você já gosta, cria um ambiente de confirmação constante — que parece agradável mas produz estagnação e intolerância ao diferente.
Consequências Para os Vínculos
Essa dinâmica afeta relacionamentos de formas específicas:
Homogeneização das redes. Com o tempo, suas conexões tendem a se parecer cada vez mais com você — mesmas opiniões, mesmos interesses, mesmos valores. Diversidade se perde.
Intolerância à diferença. Acostumado a ver apenas o que concorda, o diferente se torna perturbador, até ameaçador. Relacionamentos com pessoas diferentes se tornam difíceis.
Polarização. Em questões políticas ou controversas, algoritmos tendem a mostrar versões extremas “do outro lado”, aumentando percepção de incompatibilidade.
Fragilidade ao confronto. Sem prática de lidar com diferença, qualquer discordância pode parecer ruptura. Vínculos não sobrevivem a conflitos porque conflitos foram eliminados da dieta algorítmica.
Limites da Crítica Algorítmica

Evitando Simplificações
É importante evitar duas armadilhas na crítica aos algoritmos:
Armadilha 1: Tecnofobia simplista. Algoritmos não são “vilões” autônomos com intenções maléficas. São ferramentas projetadas por humanos, operando dentro de sistemas econômicos específicos, respondendo a padrões de uso coletivo.
Armadilha 2: Neutralidade ingênua. Algoritmos também não são ferramentas “neutras” que simplesmente refletem escolhas individuais. Eles têm vieses embutidos, servem interesses específicos e produzem efeitos sistemáticos.
A realidade é mais complexa: algoritmos são estruturas de mediação que amplificam certas tendências humanas enquanto suprimem outras.
O Que Algoritmos Não Criam
Algoritmos não criaram a fragilidade dos vínculos humanos. A modernidade líquida, como Bauman descreve, precede a era das redes sociais. A lógica do consumo aplicada a relacionamentos, a reversibilidade dos compromissos, o medo da dependência — tudo isso existia antes do Instagram.
O que algoritmos fizeram foi:
- Acelerar processos que já existiam
- Invisibilizar escolhas que antes eram conscientes
- Escalar dinâmicas que antes eram locais
- Automatizar descartabilidade que antes exigia ação
O Sistema Maior
Algoritmos operam dentro de um sistema maior que inclui:
Modelo econômico. Plataformas precisam de receita, que vem de atenção, que requer engajamento. O algoritmo serve a esse modelo.
Interesses comerciais. Decisões sobre como algoritmos funcionam são tomadas por empresas com obrigações para acionistas, não para usuários.
Escolhas culturais. A valorização de novidade, velocidade e visibilidade não foi criada por algoritmos — foi codificada neles.
Padrões de uso coletivo. Algoritmos respondem a como as pessoas usam as plataformas. Se engajamento superficial “funciona”, o algoritmo otimiza para isso.
Culpar apenas o algoritmo é como culpar o termômetro pela febre. O algoritmo mede e responde a condições — não as cria sozinho.

Engrenagem, não Vilão.
O ALGORITMO
NÃO AGE SOZINHO
É fácil culpar o algoritmo. Mas ele é engrenagem em máquina maior: modelo econômico que lucra com atenção, empresas que respondem a acionistas, cultura que valoriza visibilidade, padrões de uso que reforçam o ciclo. Entender o sistema completo é mais difícil — mas é o único caminho para mudança real.
Resistência: Desalgoritmizando Vínculos
A Resistência É Possível — Com Limites
Bauman não oferece soluções técnicas. Não há “hack” para a modernidade líquida. Mas ele aponta direções éticas que podem ser traduzidas para o contexto algorítmico.
A resistência à fragilidade algorítmica é possível — mas exige consciência e esforço. E tem limites: você não pode, individualmente, mudar como plataformas funcionam. O que pode fazer é mudar como você se relaciona com elas.
Valorizar Relações Fora da Visibilidade
A primeira forma de resistência é cultivar relacionamentos que não dependem de performance algorítmica.
Isso significa:
- Manter contato direto (mensagem, ligação, encontro) com pessoas importantes
- Não depender do feed para “saber” o que está acontecendo na vida de amigos
- Investir em relacionamentos que não geram “conteúdo”
- Aceitar que alguns vínculos importantes são invisíveis publicamente
Relacionamentos que existem apenas “no feed” são vulneráveis a desaparecer com uma mudança de algoritmo. Relacionamentos com canais diretos sobrevivem.
Sustentar Vínculos Sem Validação Constante
A segunda forma de resistência é aceitar silêncios sem interpretá-los como rejeição.
Isso significa:
- Não checar obsessivamente “quem viu” como termômetro de relacionamentos
- Aceitar que amigos verdadeiros não precisam interagir todo dia
- Distinguir entre silêncio algorítmico (o sistema não mostrou) e silêncio relacional (a pessoa se afastou)
- Dar benefício da dúvida antes de interpretar falta de engajamento
A ansiedade de validação constante é insustentável. Relacionamentos saudáveis toleraram períodos de silêncio por milênios. Os algoritmos que nos treinaram a esperar resposta imediata podem ser destreinados.
Reduzir Dependência de Métricas
A terceira forma de resistência é separar valor pessoal de performance algorítmica.
Isso significa:
- Não interpretar likes/seguidores como medida de valor humano
- Postar sem checar obsessivamente o engajamento
- Manter práticas e relacionamentos que não geram métricas
- Lembrar que o algoritmo mede engajamento, não amor, amizade ou respeito
Seu valor como pessoa não sobe quando os números sobem. Não cai quando os números caem. A dissociação entre métricas e autoestima é trabalho difícil — mas necessário.
Criar Canais Não-Algorítmicos
A quarta forma de resistência é estabelecer comunicação que bypass o algoritmo.
Isso significa:
- Grupos de WhatsApp/Signal com pessoas importantes (comunicação direta)
- E-mail para conversas que merecem profundidade
- Encontros presenciais regulares com círculo próximo
- Ligações de voz/vídeo em vez de apenas mensagens escritas
Quanto mais canais diretos você tiver, menos vulnerável estará às decisões algorítmicas sobre quem você “deveria” ver.
Os Limites da Resistência Individual
É crucial reconhecer: a resistência individual não resolve o problema estrutural.
Você pode cultivar ancoragens pessoais, mas:
- Não pode mudar como plataformas funcionam
- Não pode proteger os outros do mesmo sistema
- Não pode eliminar a pressão social por participação
- Não pode sozinho criar massa crítica para mudança
A resistência coletiva — regulação de plataformas, mudança de modelos de negócio, transformação cultural — é necessária mas está além do escopo individual. A resistência individual é necessária mas não suficiente.
Conclusão: Quando a Mediação Substitui o Encontro

O Diagnóstico Completo
A modernidade líquida, como Bauman descreveu, já fragilizava os vínculos humanos: compromissos reversíveis, relações avaliadas por benefício, medo de dependência, facilidade de descarte.
Os algoritmos não criaram essa condição — mas a aceleraram, invisibilizaram e automatizaram.
Agora, vínculos podem se dissolver sem decisão consciente. Pessoas podem desaparecer sem confronto. Relacionamentos podem morrer sem que ninguém perceba — simplesmente porque um sistema decidiu que vocês não eram “relevantes” um para o outro.
A mediação algorítmica se interpôs entre nós e nossas relações. Não nos conectamos mais diretamente — nos conectamos através de sistemas que filtram, ranqueiam, priorizam e descartam.
O Que Se Perdeu
Nessa transição, algo fundamental se perdeu: a agência sobre nossos próprios relacionamentos.
Antes, se um amigo sumia da sua vida, você sabia. Você tinha que decidir não ligar, não visitar, não escrever. A responsabilidade era sua.
Agora, amigos somem sem que você perceba. O algoritmo decide por você. A responsabilidade é diluída em sistemas que ninguém controla.
A perda de agência é a perda de responsabilidade. E a perda de responsabilidade é, em última instância, perda de humanidade nas relações.
O Que Resta Possível
Bauman não era otimista ingênuo, mas também não era niilista. Ele acreditava que, mesmo em condições adversas, escolhas conscientes são possíveis.
Na era algorítmica, isso significa:
- Reconhecer a mediação em vez de naturalizá-la
- Escolher conscientemente com quem manter vínculo direto
- Não terceirizar relacionamentos importantes para algoritmos
- Aceitar que resistência individual é parcial mas necessária
- Defender coletivamente regulação e mudança estrutural
Os vínculos humanos continuam possíveis. Profundidade continua possível. Permanência continua possível.
Mas nada disso acontece por default. Tudo exige consciência e esforço em um ambiente projetado para a substituição constante.
Uma Última Reflexão
Voltamos à pergunta inicial:
Quando foi a última vez que você conversou de verdade com aquele amigo?
Não através de likes. Não através de stories. Não através de algoritmos que decidiram que vocês ainda são “relevantes” um para o outro.
Conversou de verdade — como humanos se conectam há milênios, antes que máquinas decidissem quem merecia ser visto.
A resposta a essa pergunta diz mais sobre o estado dos seus relacionamentos do que qualquer métrica de engajamento.
E a boa notícia é: você ainda pode fazer essa ligação. O algoritmo não te impede. Ele apenas te distraiu.
A escolha, no fim, ainda é sua.
Perguntas Frequentes
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