12 min

O que é democracia — O paradoxo de uma palavra universal

Em 2023, o Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit classificou apenas 24 países como “democracias plenas” — menos de 8% da população mundial vive sob esse regime em sua forma mais robusta. Ao mesmo tempo, quase todos os governos do planeta reivindicam alguma forma de legitimidade democrática.

Esse paradoxo revela algo importante: o prestígio do conceito não garante a clareza do seu significado. Poucas palavras políticas gozam de tanta autoridade e, simultaneamente, de tanta imprecisão.

A democracia contemporânea carrega um nome antigo, mas abriga práticas, expectativas e tensões que não existiam em sua origem. Este ensaio examina a distância entre o ideal antigo e o uso moderno do conceito. A pergunta que nos guia é aparentemente simples, mas fundamental: quando tentamos definir o que é democracia, do que estamos realmente falando?

A invenção ateniense: democracia como experiência concreta

A democracia não nasceu como teoria. Nasceu como experimento.

No final do século VI a.C., Atenas atravessava uma crise de legitimidade. Foi nesse contexto que Clístenes, em 508-507 a.C., implementou um conjunto de reformas que reorganizaram a vida política ateniense. Ele não chamou seu sistema de “democracia” — o termo viria depois —, mas criou as condições para que ela existisse.

As reformas de Clístenes redistribuíram os cidadãos em dez tribos territoriais, diluindo o poder das famílias aristocráticas. Criaram o Conselho dos Quinhentos e fortaleceram a Eclésia, a assembleia popular onde os cidadãos se reuniam para deliberar e decidir.

Na Eclésia, qualquer cidadão podia falar. As decisões eram tomadas por maioria. Muitos cargos públicos eram preenchidos por sorteio, sob a premissa de que qualquer cidadão era capaz de governar. A democracia ateniense levava a sério um princípio radical: a isegoria, o direito igual à palavra pública.

[BOX: VOCÊ SABIA?]
Em seu auge, Atenas tinha cerca de 250.000 a 300.000 habitantes. Desses, apenas 30.000 a 40.000 eram cidadãos com direitos políticos. Isso significa que apenas 10% a 15% da população participava da democracia. Mulheres, escravizados e estrangeiros estavam excluídos.

Esse dado revela que definir o que é democracia na antiguidade exige cautela. Ela era local, restrita e presencial. O cidadão existia porque aparecia. Não havia representação: quem não comparecia, não participava.

A crítica clássica: Platão, Aristóteles e os riscos do governo popular

O que é democracia

Mesmo em seu berço, a democracia nunca foi consenso.

Platão, escrevendo no século IV a.C., dirigiu à democracia algumas de suas críticas mais severas. No Livro VIII de A República, ele descreve a alma democrática como aquela que trata todos os desejos como iguais. Para Platão, era o regime da equivalência indiscriminada.

O risco, segundo ele, era a demagogia: líderes hábeis em persuadir, mas desprovidos de sabedoria, conduziriam o povo a decisões desastrosas. A democracia, entregue às paixões da multidão, tenderia à desordem — e da desordem nasceria a tirania.

[BOX: CONCEITO-CHAVE]
Demagogia — Do grego demagogía: condução do povo. Originalmente neutro, o termo passou a designar a manipulação das massas por meio de apelos emocionais.

destaque1 16

O Perigo Oculto

A TIRANIA

DA MAIORIA

Desde a Grécia Antiga, o maior medo não era o governo do povo, mas a manipulação das massas por líderes carismáticos sem escrúpulos. A demagogia é a sombra eterna da democracia.

Aristóteles ofereceu uma análise mais matizada. Para ele, a democracia era a corrupção da politeia — o governo dos muitos orientado para o bem comum. Quando os muitos governam apenas em benefício próprio, temos democracia no sentido negativo.

O eclipse medieval: a democracia some, mas não desaparece

O Que É Democracia: Do Ideal Antigo aos Dilemas do Presente

Durante séculos, a democracia praticamente desaparece como referência política central. O poder na Europa medieval se organiza em torno de hierarquias e monarquias. A legitimidade não deriva do povo, mas da tradição ou da transcendência divina.

Seria um erro, contudo, supor que toda forma de participação coletiva tenha desaparecido.

A reinvenção moderna: representação, direitos e o retorno do conceito

O que é democracia — O paradoxo de uma palavra universal

É na modernidade que o entendimento sobre o que é democracia retorna — mas irreconhecível para um ateniense.

Os séculos XVII e XVIII assistem a uma profunda reconfiguração. A legitimidade do poder passa a depender de uma nova fonte: o consentimento dos governados.

John Locke argumentou que o governo legítimo nasce de um contrato. O poder político é um depósito confiado pelo povo. Jean-Jacques Rousseau radicalizou o argumento, defendendo que a soberania pertence ao povo e é inalienável.

A Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789) deram concretude a esses princípios. Dessas experiências emergiu a democracia moderna: um sistema que combina representação, direitos individuais e constitucionalismo.

[BOX: COMPARATIVO]

AspectoDemocracia AntigaDemocracia Moderna
ParticipaçãoDireta (assembleia)Representativa (eleições)
EscalaCidade-EstadoEstado-nação
LegitimidadePresença físicaEleição periódica

Evolução Política

DO SORTEIO

AO VOTO

Na antiguidade, governar era um dever sorteado entre os cidadãos. Na modernidade, tornou-se uma escolha eleitoral. Mudamos a técnica, mas o objetivo permanece: controlar o poder.

destaque2 13

Século XIX: democracia, nação e os paradoxos da expansão

EXPANSAO

No século XIX, a democracia se funde com a ideia de nação. O povo soberano torna-se uma comunidade concreta, com identidade compartilhada.

De um lado, a democratização se expandiu. O sufrágio foi gradualmente ampliado. A Nova Zelândia, em 1893, tornou-se o primeiro país a conceder voto às mulheres em eleições nacionais.

De outro lado, a democratização conviveu com a exclusão. O mesmo século que expandiu direitos na Europa foi o auge do imperialismo colonial.

Alexis de Tocqueville, observando os EUA, alertou para a tirania da maioria: a pressão conformista que a opinião pública exerce sobre os indivíduos. Um paradoxo que continua a ecoar quando debatemos o que é democracia.

Século XX: democracia sob pressão

SEGUNDA GUERRA

As experiências do século XX demonstraram que a democracia não é irreversível. A ascensão do nazismo na Alemanha e dos fascismos mostrou que eleições podem ser instrumentalizadas para destruir a própria democracia.

A Guerra Fria dividiu o mundo, e pensadores como Hannah Arendt tentaram compreender as falhas. Ela argumentou que a democracia depende da existência de um espaço público onde a pluralidade humana possa aparecer.

Desde meados dos anos 2000, observadores registram uma recessão democrática global. A democracia, que parecia destinada a se expandir indefinidamente, revelou-se mais frágil do que o otimismo liberal supunha.

A democracia hoje: palavra total, prática frágil

Na contemporaneidade, “democracia” tornou-se palavra quase absoluta. Todos a reivindicam. Ainda assim, o conceito se dilui.

Os dados são preocupantes, com altas taxas de abstenção eleitoral. O fenômeno das democracias iliberais ganhou concretude, mantendo eleições enquanto corroem liberdades.

A desinformação complica o cenário. Se a democracia pressupõe deliberação racional, o que acontece quando a noção de fato se torna disputável? Levitsky e Ziblatt argumentam que o colapso democrático hoje ocorre gradualmente, por dentro, através de líderes eleitos.

O dilema da representação sem presença

Um dos problemas estruturais ao definir o que é democracia hoje é a distância entre representação e presença.

A democracia ateniense exigia o corpo do cidadão. A moderna substituiu a presença pela representação. Hoje, a política ocorre em camadas distantes: instituições opacas, sistemas técnicos e plataformas digitais.

O cidadão participa pouco e observa muito. A democracia permanece formalmente válida, mas como experiência de participação coletiva, ela se empobreceu.

destaque3 10

Crise de Identidade

O CIDADÃO

CONSUMIDOR

Quando a política vira um produto e o eleitor um cliente, a democracia perde sua alma. Participar não é apenas escolher opções na prateleira, é ajudar a construir o mercado.

O que a democracia exige de nós

Diante desse cenário, cabe perguntar: o que é necessário para que a democracia funcione como forma de vida coletiva?

Alguns critérios mínimos ajudam a avaliar a qualidade democrática:

  1. Pluralidade efetiva — Diferentes vozes são ouvidas?
  2. Informação confiável — Há acesso a fatos verificáveis?
  3. Participação significativa — A participação influencia decisões reais?
  4. Limites ao poder — Existem freios contra abusos?
  5. Responsividade — Os governantes respondem aos governados?

Conclusão — Reaprender a perguntar

Questionar o que é democracia não é atacá-la. É recuperar sua complexidade.

Este ensaio atravessou milênios para mostrar que a democracia não é uma essência fixa, mas uma prática histórica. Tratá-la como valor natural impede a crítica.

A democracia não se preserva pela repetição da palavra, mas pela atenção às formas concretas de convivência. E essa atenção começa com uma pergunta que cada geração precisa refazer: o que, afinal, queremos dizer quando dizemos democracia?

Perguntas Frequentes

O Que É Democracia: Do Ideal Antigo aos Dilemas do Presente

Leitura Recomendada: Aprofunde-se no Tema

Para compreender melhor os desafios e a história deste regime, sugerimos estas obras essenciais.

📚 Leitura Recomendada

Capa Como as democracias morrem

Como as democracias morrem

Autor: Steven Levitsky (Autor), Daniel Ziblatt (Autor), Renato Aguiar (Tradutor)

🏢 Ed: Zahar 📅 Ano: 2018 🔢 ASIN: 8537818003

Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a questão que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – dois conceituados professores de Harvard – respondem ao discutir o modo como a eleição de Donald Trump se tornou possível. Para isso comparam o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970. E alertam: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos e na Europa, esta é uma obra fundamental para o momento conturbado que vivemos no Brasil e em boa parte do mundo e um guia indispensável para manter e recuperar democracias ameaçadas.

Ver oferta na Amazon →
Capa A Democracia na América – Edição Integral

A Democracia na América – Edição Integral

Autor: Alexis de Tocqueville (Autor), Julia da Rosa Simões (Tradutor)

🏢 Ed: Edipro 📅 Ano: 2019 🔢 ASIN: 8552100754

Em maio de 1831, Alexis de Tocqueville foi enviado aos Estados Unidos pelo governo francês para estudar o sistema prisional americano. Seu relatório foi apresentado após nove meses de viagem, mas foram suas demais anotações sobre economia e política que resultaram nesta obra, publicada originalmente em dois volumes. O primeiro, de 1835, sobre leis e costumes do país, e o segundo, de 1840, sobre os sentimentos e opiniões do autor a respeito de sua viagem.Os dois tomos estão reunidos nesta edição. Tocqueville a princípio destaca a igualdade de condições, seja financeira ou intelectual, da qual gozavam os americanos. O autor descreve o sistema de herança, a universalidade da educação básica e, até mesmo, os recursos financeiros e educacionais dos imigrantes fundadores do país como fatores que contribuíram para essa igualdade. A Democracia na América é a fotografia da energia pela participação política de uma nação em seus primeiros passos. Tocqueville faz ainda uma predição dos Estados Unidos e da Rússia como as grandes potências do século seguinte. Um clássico indispensável para os apreciadores de História, Política e Ciências Sociais.

Ver oferta na Amazon →
Capa O povo contra a democracia: Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la

O povo contra a democracia: Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la

Autor: Yascha Mounk (Autor), Cássio de Arantes Leite (Tradutor), Débora Landsberg (Tradutor)

🏢 Ed: Companhia das Letras 📅 Ano: 2019 🔢 ASIN: 8535932089

'A democracia perdeu sua força e corre perigo. Como chegamos até aqui e o que precisamos fazer agora? Neste livro contundente e necessário, Yascha Mounk une análise política e sólida pesquisa e nos dá diretrizes para o futuro. Com prefácio exclusivo à edição brasileira. O mundo está em crise. Da Rússia, Turquia e Egito aos Estados Unidos, populistas autoritários tomaram o poder. Os cidadãos estão perdendo a confiança em seu sistema político. Como resultado, a própria democracia corre perigo. De um lado, o toma lá, dá cá se tornou moeda de troca política e excluiu a população das tomadas de decisões fundamentais, criando um sistema de “direitos sem democracia”. De outro, governantes antiestablishment defendem restituir o poder ao povo e lutar contra todo e qualquer obstáculo institucional, mesmo que isso signifique criar, na prática, uma “democracia sem direitos”. Em O povo contra a democracia, Yascha Mounk faz uma análise precisa sobre esse cenário comum a diversas nações― e analisa o caso brasileiro no prefácio exclusivo a esta edição. É possível reverter a situação e assegurar os valores democráticos? Sim, mas não há tempo a perder. “Uma explicação clara, concisa e perspicaz das condições que fizeram a democracia liberal funcionar ― e como o colapso delas é a fonte da atual crise democrática em todo o mundo.” ― The Guardian “Qual é exatamente a natureza dessa crise? E o que a impulsiona? Em meio a tantos livros do gênero, O povo contra a democracia destaca-se pela qualidade das respostas a essas perguntas. Mounk fornece uma combinação admirável de experiência acadêmica e senso político.” ― The Economist '

Ver oferta na Amazon →

🛒 Nota de Transparência: Somos afiliados da Amazon. A Ars Multiverse recebe uma pequena comissão pelas vendas confirmadas através destes links, sem custo adicional para você.

Nota Editorial

Este ensaio integra o projeto Ars Multiverse. Os autores utilizam nomes editoriais e representam vozes ensaísticas do projeto.

O texto pode ser compartilhado ou republicado para fins educacionais ou editoriais, desde que seja atribuída a autoria editorial indicada e mencionada a fonte original: Ars Multiverse.

Para comentários ou solicitações, entre em contato com a curadoria editorial.

author-avatar

About Adriano Valença

Adriano Valença é ensaísta dedicado à história das ideias e à genealogia dos conceitos que estruturam o pensamento contemporâneo. Escreve sobre a origem, transformação e deslocamento de noções como liberdade, progresso, indivíduo, razão e democracia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *