Teosofia: A Sabedoria Divina — Blavatsky e a Síntese das Tradições
Em 1875, numa sala em Nova York, uma aristocrata russa excêntrica, um coronel americano e um punhado de buscadores fundaram uma sociedade que mudaria o curso da espiritualidade ocidental.
A russa era Helena Petrovna Blavatsky — viajante do mundo, médium controversa, erudita autodidata. O coronel era Henry Steel Olcott — advogado, jornalista, investigador de fenômenos espirituais. A sociedade era a Sociedade Teosófica.
O objetivo declarado era audacioso: formar um núcleo de fraternidade universal, estudar as religiões e filosofias comparadas, e investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no ser humano.
Na prática, o que Blavatsky e seus seguidores fizeram foi ainda mais radical: tentaram sintetizar as tradições espirituais do Oriente e do Ocidente numa única visão coerente — uma “sabedoria divina” (theos = deus, sophia = sabedoria) que estaria na raiz de todas as religiões.
Cento e cinquenta anos depois, a Sociedade Teosófica ainda existe. Mas sua influência vai muito além de seus membros declarados. A Teosofia é a mãe oculta de quase toda a espiritualidade alternativa moderna:
- Os chakras como você os conhece? Popularizados por um teósofo.
- O movimento New Age? Filho direto da Teosofia.
- Mestres ascensos, planos astrais, registros akáshicos? Vocabulário teosófico.
- Yoga no Ocidente? Teósofos trouxeram os primeiros mestres indianos.
- Rudolf Steiner e a Antroposofia? Nasceu dentro da Teosofia.
- Krishnamurti, o filósofo que recusou ser messias? Criado por teósofos.
A Teosofia não é apenas uma tradição entre outras. É o ponto de inflexão onde o Oriente encontrou o Ocidente, onde o esoterismo saiu das sociedades secretas para o público, onde conceitos que hoje parecem óbvios (“todas as religiões têm a mesma verdade”) foram articulados pela primeira vez para audiências modernas.
Este ensaio é uma introdução a essa tradição fascinante e controversa — sua fundadora extraordinária, seus ensinamentos complexos, sua influência imensa, e seu legado ambíguo.
O Que É Teosofia

Definição
Teosofia significa literalmente “sabedoria divina” — do grego theos (deus) e sophia (sabedoria).
O termo é antigo. Já era usado por neoplatônicos no século III para designar o conhecimento direto das coisas divinas. Mas quando falamos de “Teosofia” hoje, geralmente nos referimos ao movimento fundado por Blavatsky em 1875 — a Teosofia moderna.
A Teosofia moderna pode ser definida como:
Uma síntese de religião, filosofia e ciência que afirma a existência de uma Sabedoria Antiga — conhecimento esotérico preservado por mestres iluminados — que está na raiz de todas as tradições espirituais e pode ser redescoberto através de estudo e desenvolvimento interior.
Os Três Objetivos
A Sociedade Teosófica foi fundada com três objetivos:
- Formar um núcleo de fraternidade universal da humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor
- Encorajar o estudo comparado de religião, filosofia e ciência
- Investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no ser humano
Esses objetivos eram radicais para 1875:
- Fraternidade universal numa época de racismo científico e colonialismo
- Estudo comparado de religiões quando cada uma se proclamava a única verdadeira
- Investigação de fenômenos “ocultos” quando a ciência os rejeitava
O Que a Teosofia NÃO É
Não é religião — Não tem dogmas obrigatórios, sacramentos ou clero. Membros podem pertencer a qualquer religião ou nenhuma.
Não é seita — Não exige devoção a líder ou abandono de outras afiliações.
Não é ocultismo de salão — Embora investigue o “oculto”, não é sobre truques, magia negra ou poder pessoal.
Não é apenas os escritos de Blavatsky — A Teosofia evoluiu com múltiplos autores e correntes.
Helena Blavatsky: A Fundadora

Uma Vida Extraordinária
Helena Petrovna von Hahn nasceu em 1831 na Ucrânia (então parte do Império Russo), em família aristocrática. Desde criança, mostrou-se diferente — temperamento difícil, experiências que ela descrevia como visões e contatos com seres invisíveis.
Aos 17 anos, casou-se com Nikifor Blavatsky, vice-governador muito mais velho. O casamento durou meses. Helena fugiu — e passou as próximas duas décadas viajando pelo mundo de formas que permanecem parcialmente misteriosas.
As viagens (1849-1873): Blavatsky alegou ter viajado por Egito, Índia, Tibete, América do Sul, e muitos outros lugares. Algumas viagens são documentadas; outras são duvidosas. A mais controversa é sua alegada estadia no Tibete, onde teria estudado com mestres ocultos.
O que é certo: ela acumulou conhecimento impressionante de tradições esotéricas orientais e ocidentais numa época em que esse conhecimento era muito menos acessível que hoje.
Nova York (1873): Blavatsky chegou aos Estados Unidos e rapidamente se envolveu com o movimento espiritualista (mesas girantes, médiuns). Conheceu Olcott, que investigava fenômenos espíritas para jornais.
1875: Fundação da Sociedade Teosófica.
1877: Publicação de Ísis Sem Véu (Isis Unveiled) — obra monumental de dois volumes atacando tanto o materialismo científico quanto o dogmatismo religioso.
1879: Mudança para Índia. A Sociedade estabelece sede em Adyar, Madras (hoje Chennai), onde permanece até hoje.
1888: Publicação de A Doutrina Secreta (The Secret Doctrine) — sua magnum opus, síntese cosmológica e antropológica de proporções épicas.
1891: Morte em Londres, aos 59 anos.
Controvérsias
Blavatsky foi — e permanece — figura extremamente controversa:
Os fenômenos: Ela demonstrava fenômenos aparentemente paranormais — materialização de objetos, cartas que apareciam do nada (dos “Mestres”). Em 1884, a Society for Psychical Research investigou e declarou-a fraude. Estudos posteriores questionaram essa conclusão, mas a mancha permaneceu.
Os Mestres: Blavatsky alegava estar em contato com “Mahatmas” ou “Mestres da Sabedoria” — seres humanos altamente evoluídos que guiavam a humanidade dos bastidores. Ela recebia cartas deles (as famosas “Mahatma Letters”). Eram reais? Invenções? O debate continua.
Plágio e erros: Críticos apontaram erros factuais e passagens aparentemente plagiadas em suas obras. Defensores argumentam que erros não invalidam o todo e que o conceito de “originalidade” era diferente no século XIX.
A pessoa: Blavatsky era temperamental, fumava incessantemente, usava linguagem às vezes grosseira, e tinha personalidade difícil. Não era santa etérea — era figura complexa, contraditória, muito humana.
O Legado
Independentemente das controvérsias, o impacto de Blavatsky é inegável:
- Introduziu conceitos hindus e budistas ao público ocidental numa escala sem precedentes
- Articulou uma visão de “religião universal” antes do movimento inter-religioso
- Inspirou gerações de buscadores, artistas e pensadores
- Estabeleceu vocabulário e conceitos que permeiam a espiritualidade moderna
Os Ensinamentos Centrais

A Doutrina Secreta: Estrutura
A magnum opus de Blavatsky, A Doutrina Secreta (1888), está organizada em dois volumes principais:
Volume I — Cosmogênese: A origem e evolução do universo
Volume II — Antropogênese: A origem e evolução da humanidade
O livro é denso, complexo, cheio de referências a dezenas de tradições. Não é leitura fácil. Mas seus conceitos centrais podem ser destilados.
As Três Proposições Fundamentais
Blavatsky abre a Doutrina Secreta com três proposições que formam a base de todo o sistema:
1. O Absoluto
Existe um Princípio Onipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável — tão além de qualquer pensamento ou especulação humana que qualquer descrição o diminuiria.
Este é o fundamento sem nome — antes de qualquer manifestação, antes dos deuses, antes do universo. Comparável ao Brahman do Vedanta, ao Tao, ao Ein Sof da Cabala.
2. A Eternidade do Universo
O universo é eterno em sua totalidade, mas manifesta-se periodicamente. Há ciclos infinitos de manifestação e dissolução — “Dias e Noites de Brahma”.
O universo pulsa — expande-se, contrai-se, expande-se novamente. Não houve “criação” única; há processo eterno. Cada ciclo dura bilhões de anos.
3. A Identidade Fundamental
Todas as almas são idênticas à Alma Universal e devem passar por todo o ciclo de encarnação, desde o mineral até o divino, através de esforço individual e mérito.
Aqui está a base da evolução espiritual: cada centelha divina (mônada) percorre jornada imensa — mineral, vegetal, animal, humano, e além — até retornar conscientemente à fonte.
Os Sete Planos
A cosmologia teosófica descreve a realidade em sete planos de existência, do mais denso ao mais sutil:
| Plano | Nome | Natureza |
|---|---|---|
| 7 | Adi / Divino | O mais elevado, inconcebível |
| 6 | Anupadaka / Monádico | Plano das mônadas |
| 5 | Atma / Espiritual | Vontade espiritual |
| 4 | Buddhi / Intuicional | Intuição, amor-sabedoria |
| 3 | Manas / Mental | Mente, pensamento |
| 2 | Astral / Emocional | Emoções, desejos |
| 1 | Físico | Matéria densa e etérica |
Cada plano tem sua própria “matéria” e leis. O ser humano tem “corpos” em cada plano — corpo físico, corpo astral, corpo mental, etc.
Os Sete Princípios do Ser Humano
Correspondendo aos sete planos, o ser humano é composto de sete princípios:
| # | Princípio | Natureza |
|---|---|---|
| 7 | Atma | Espírito universal, raio do Absoluto |
| 6 | Buddhi | Alma espiritual, veículo de Atma |
| 5 | Manas | Mente, dividida em superior (abstrata) e inferior (concreta) |
| 4 | Kama | Desejos, emoções |
| 3 | Prana | Vitalidade, energia vital |
| 2 | Linga Sharira | Corpo astral/etérico |
| 1 | Sthula Sharira | Corpo físico |
A tríade superior (Atma-Buddhi-Manas superior) é a parte imortal — a individualidade que persiste através das encarnações.
A quaternária inferior (Manas inferior, Kama, Prana, corpos) é a personalidade — que muda a cada vida.
O objetivo da evolução: integrar personalidade e individualidade, tornar-se conscientemente aquilo que já se é essencialmente.
Reencarnação e Carma
A Teosofia ensina:
Reencarnação: A alma (mônada) passa por incontáveis encarnações, aprendendo através da experiência. Cada vida é aula; cada circunstância, oportunidade.
Carma: Lei de causa e efeito. Toda ação gera consequência. O carma não é punição — é educação. As condições de cada vida resultam de ações passadas e criam condições futuras.
Evolução espiritual: Através das encarnações, a alma evolui — de inconsciência mineral a autoconsciência humana a consciência cósmica dos Mestres e além.
Os Mestres da Sabedoria
Um dos aspectos mais controversos e influentes da Teosofia é a doutrina dos Mestres (ou Mahatmas, ou Adeptos).
Mestres são seres humanos que completaram a evolução humana — alcançaram iluminação, mas escolheram permanecer em contato com a humanidade para guiá-la.
Blavatsky alegava contato com dois Mestres principais:
- Mestre Morya (M.) — associado à vontade
- Mestre Koot Hoomi (K.H.) — associado à sabedoria
Os Mestres teriam fundado a Sociedade Teosófica através de Blavatsky como instrumento.
A Grande Fraternidade Branca seria a hierarquia de Mestres que guia a evolução planetária — cada um especializado em diferentes aspectos do desenvolvimento humano.
Controvérsia: Os Mestres são reais? Símbolos? Invenções? O debate divide até teósofos. Alguns os veem como seres literais; outros como representações de estados de consciência; outros como projeções de Blavatsky.

Não há Religião Superior à Verdade
A DIVISA
TEOSÓFICA
lema da Sociedade Teosófica — captura sua essência. Nenhuma religião, nenhuma tradição, nenhum mestre tem monopólio da verdade. A verdade está em toda parte e deve ser buscada em toda parte. O teósofo estuda todas as tradições não para convertê-las a uma, mas para encontrar o fio dourado que as une. Esta é a Religião da Sabedoria — não uma nova religião, mas a redescoberta da verdade perene por trás de todas.
Desenvolvimento Pós-Blavatsky

Annie Besant e a Expansão
Após a morte de Blavatsky, a liderança passou eventualmente para Annie Besant (1847-1933) — ex-ateísta, feminista, socialista, que se converteu à Teosofia em 1889.
Sob Besant, a Sociedade:
- Expandiu-se dramaticamente, especialmente na Índia
- Tornou-se mais organizada e institucionalizada
- Envolveu-se em causas sociais (especialmente independência indiana)
- Desenvolveu a expectativa do “Instrutor Mundial”
O caso Krishnamurti: Em 1909, Besant e o clarividente C.W. Leadbeater “descobriram” um menino indiano, Jiddu Krishnamurti, que seria o veículo do próximo grande instrutor espiritual — uma nova encarnação do Cristo/Maitreya.
Krishnamurti foi educado pela Sociedade para esse papel. Mas em 1929, para surpresa de todos, ele dissolveu a organização criada em torno dele e rejeitou o papel de messias:
“A Verdade é uma terra sem caminhos. Nenhuma organização pode levar o homem a ela.”
Krishnamurti passou a ensinar independentemente, tornando-se um dos filósofos espirituais mais influentes do século XX — ironicamente, rejeitando tudo que a Teosofia organizacional representava.
C.W. Leadbeater e a Clarividência
Charles Webster Leadbeater (1854-1934) foi figura influente — e controversa — na Teosofia pós-Blavatsky.
Leadbeater alegava poderes clarividentes desenvolvidos e escreveu extensamente sobre:
- Os chakras (seu livro popularizou o conceito no Ocidente)
- O corpo astral e viagens astrais
- A estrutura dos átomos (vistos clarividentmente)
- Vidas passadas de vários indivíduos
O sistema de chakras que você conhece — sete chakras principais, cores específicas para cada um — vem em grande parte de Leadbeater, não de textos indianos tradicionais.
Controvérsias: Leadbeater enfrentou acusações sérias (envolvendo meninos) que quase destruíram sua carreira. Foi expulso e readmitido à Sociedade. As acusações permanecem debatidas.
Rudolf Steiner e a Antroposofia
Rudolf Steiner (1861-1925), intelectual austríaco, liderou a seção alemã da Sociedade Teosófica de 1902 a 1912.
Divergências com Besant (especialmente sobre Krishnamurti) levaram Steiner a sair e fundar a Sociedade Antroposófica — movimento que preserva estrutura teosófica mas com ênfase maior em:
- Cristianismo esotérico (vs. orientalismo de Blavatsky)
- Aplicações práticas: educação (Waldorf), agricultura (biodinâmica), medicina, arte
- Investigação espiritual como ciência
A Antroposofia é hoje mais conhecida que a Teosofia — principalmente pelas escolas Waldorf espalhadas pelo mundo.
Alice Bailey e os “Livros Azuis”
Alice Bailey (1880-1949) alegava canalizar o Mestre Djwhal Khul (“O Tibetano”) e produziu vasta obra — os chamados “Livros Azuis”.
Bailey expandiu enormemente a cosmologia teosófica e introduziu conceitos que se tornariam centrais no movimento New Age:
- Os Sete Raios
- A Grande Invocação
- Ênfase em serviço mundial
- Expectativa de nova era (Era de Aquário)
A Sociedade Teosófica oficial rejeitou Bailey; ela fundou a Escola Arcana independente.
A Influência da Teosofia

Na Espiritualidade Ocidental
A influência da Teosofia é incalculável. Praticamente todo movimento espiritual alternativo do século XX tem DNA teosófico:
O Movimento New Age:
- “Mestres ascensos” — conceito teosófico
- “Era de Aquário” — popularizado por teósofos
- “Registros akáshicos” — termo teosófico
- Chakras, aura, corpos sutis — divulgados por teósofos
Yoga no Ocidente:
- Teósofos patrocinaram Vivekananda (1893)
- Teósofos trouxeram mestres indianos ao Ocidente
- A Sociedade Teosófica foi ponte crucial Oriente-Ocidente
Religiões e movimentos derivados:
- Antroposofia (Steiner)
- Escola Arcana (Alice Bailey)
- “I AM” Activity
- Summit Lighthouse / Church Universal and Triumphant
- E muitos outros
Nas Artes
Artistas do início do século XX foram profundamente influenciados:
Wassily Kandinsky: Pioneiro da arte abstrata, membro da Sociedade Teosófica. Seu livro “Do Espiritual na Arte” reflete ideias teosóficas.
Piet Mondrian: As famosas composições geométricas têm raízes em meditação e conceitos teosóficos.
Hilma af Klint: Artista sueca cujos trabalhos abstratos (anteriores a Kandinsky) nasceram de experiências espirituais teosóficas.
Alexander Scriabin: Compositor russo que planejava uma obra sinestésica total (“Mysterium”) baseada em ideias teosóficas.
Na Índia
Paradoxalmente, a Teosofia — movimento ocidental baseado em sabedoria oriental — teve enorme impacto na Índia:
- Ajudou a revitalizar o orgulho hindu numa época de dominação colonial
- A Sociedade Teosófica apoiou ativamente a independência indiana
- Annie Besant foi presidente do Congresso Nacional Indiano (1917)
- Teósofos ajudaram a fundar universidades indianas
Indianos educados redescobriram seu próprio patrimônio espiritual parcialmente através de olhos teosóficos.
Críticas e Controvérsias
Críticas Históricas
Fraude alegada: O Relatório Hodgson da Society for Psychical Research (1885) declarou Blavatsky “uma das mais consumadas impostoras da história”. Estudos posteriores questionaram a metodologia de Hodgson, mas o dano reputacional foi imenso.
Apropriação cultural: Antes do termo existir, Blavatsky foi acusada de distorcer tradições orientais para propósitos ocidentais.
Elitismo racial: A Doutrina Secreta contém passagens sobre “raças-raiz” que, lidas literalmente, parecem racistas. Teósofos argumentam que “raças” refere-se a estágios evolutivos, não a raças biológicas — mas a linguagem é problemática e foi apropriada por movimentos racistas.
Ariosofismo: Movimentos proto-nazistas na Alemanha usaram (distorceram) conceitos teosóficos — especialmente a suástica (símbolo espiritual) e a ideia de raça ariana. A Teosofia não era nazista, mas conexões históricas são perturbadoras.
Críticas Contemporâneas
Falta de evidência: Cientistas consideram alegações teosóficas (clarividência, mestres, planos astrais) sem base empírica.
Sincretismo superficial: Acadêmicos de estudos religiosos criticam a Teosofia por misturar tradições de forma que distorce cada uma.
Expectativas messiânicas: O fiasco Krishnamurti mostrou os perigos de esperar salvadores.
Institucionalização: A Sociedade tornou-se, para alguns, exatamente o tipo de organização dogmática que criticava.
Defesas
Contribuição real: Independentemente de fraudes ou erros, a Teosofia contribuiu para:
- Diálogo inter-religioso
- Interesse ocidental pelo Oriente
- Vocabulário espiritual moderno
- Movimentos de arte e cultura
Julgamento contextual: Blavatsky deve ser julgada por padrões de seu tempo. Passagens problemáticas sobre raça refletiam (e às vezes desafiavam) o pensamento de sua época.
O ensinamento além da fundadora: Mesmo que Blavatsky tivesse falhas pessoais, isso não invalida necessariamente os ensinamentos.
A Teosofia Hoje

A Sociedade Teosófica
A Sociedade Teosófica ainda existe, com sede internacional em Adyar, Índia (seção mais tradicional) e ramificações independentes.
Membros estimados: dezenas de milhares mundialmente — muito menos que no auge do início do século XX, mas ainda ativa.
Atividades:
- Estudo dos escritos clássicos
- Publicações e biblioteca
- Palestras e cursos
- Diálogo inter-religioso
Relevância Contemporânea
A Teosofia como instituição diminuiu. Mas suas ideias permeiam:
- Livrarias de “espiritualidade” estão cheias de conceitos teosóficos (chakras, aura, vidas passadas, mestres)
- Yoga e meditação no Ocidente carregam DNA teosófico
- A noção de que “todas as religiões são uma” tornou-se senso comum em círculos espirituais
A Teosofia venceu culturalmente mesmo perdendo institucionalmente.
O Que Estudar
Para quem quer explorar:
Nível introdutório:
- “A Chave para a Teosofia” — Blavatsky (introdução em forma de perguntas e respostas)
- “A Voz do Silêncio” — Blavatsky (pequeno livro de aforismos, muito bonito)
- “Introdução à Teosofia” — cursos online da Sociedade
Nível intermediário:
- “Ísis Sem Véu” — Blavatsky (mais acessível que a Doutrina Secreta)
- “O Homem Visível e Invisível” — Leadbeater (sobre corpos sutis)
- Escritos de Annie Besant
Nível avançado:
- “A Doutrina Secreta” — Blavatsky (monumental, desafiadora)
- Cartas dos Mahatmas
- Obras de G. de Purucker (comentários sistemáticos)
A Verdade é uma Terra sem Caminhos
O LAGADO
PARADOXAL
Krishnamurti, criado para ser o veículo do Instrutor Mundial, rejeitou o papel e ensinou: “A verdade é uma terra sem caminhos. Nenhuma organização pode levar o homem a ela.” Paradoxalmente, a Teosofia — que criou organização, hierarquia, expectativas messiânicas — também gerou sua própria antítese. Talvez esse seja seu legado mais profundo: não um sistema a seguir, mas uma pergunta a perseguir. A verdade está em toda parte; nenhum mapa a contém.

Conclusão — A Síntese Imperfeita

O Que a Teosofia Tentou
A Teosofia tentou algo extraordinariamente ambicioso: sintetizar o conhecimento espiritual da humanidade numa única visão coerente.
Tentou provar que por trás de todas as religiões — hinduísmo, budismo, cristianismo, islamismo, tradições indígenas — havia uma verdade perene, uma Sabedoria Antiga preservada por iniciados.
Tentou casar Oriente e Ocidente numa época em que o Ocidente se considerava superior e o Oriente era “exótico”.
Tentou legitimar o espiritual numa era de materialismo científico crescente.
Onde Acertou
- Abriu portas entre culturas que permanecem abertas
- Introduziu milhões ao yoga, meditação, filosofia oriental
- Criou vocabulário que ainda usamos
- Defendeu fraternidade universal numa época de racismo científico
- Inspirou artistas, pensadores, reformadores
Onde Errou
- Alegações não comprovadas apresentadas como fatos
- Apropriação e distorção de tradições
- Hierarquias e expectativas messiânicas
- Passagens racialmente problemáticas
- Institucionalização do que deveria ser busca livre
O Legado
A Teosofia não é verdade final — e nunca alegou ser. “Não há religião superior à verdade” significa: continue buscando, mesmo além da Teosofia.
Talvez seu maior valor seja como ponto de partida — uma porta que abre para muitas outras. Quem entra na Teosofia frequentemente sai para explorar:
- Vedanta e hinduísmo original
- Budismo em suas várias formas
- Cabala e esoterismo ocidental
- Tradições que Blavatsky apenas apontou
A síntese é imperfeita. Toda síntese humana é. Mas o impulso de buscar unidade por trás da diversidade, verdade por trás das formas, permanece válido — e a Teosofia, com todas as suas falhas, serviu a esse impulso.
Perguntas Frequentes
Teosofia: A Sabedoria Divina — Blavatsky e a Síntese das Tradições
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